Tecnologia Verde e Energia Renovável – O Mito da Sustentabilidade

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Texto compartilhado do site do movimento Deep Green Resistance.

Irá a tecnologia verde salvar o planeta?

Não. Turbinas eólicas, painéis solares e a própria infraestrutura da rede elétrica são todos fabricados usando energia barata proveniente dos combustíveis fósseis. Quando os custos destes combustíveis subirem até determinado ponto, este produtos fabricados não serão viáveis.

Os painéis solares e as turbinas eólicas não são feitos do nada. São feitos de metais, plásticos e químicos. Estes produtos têm que ser extraídos do solo, transportados, processados e fabricados. Cada uma destas etapas deixa atrás de si um rasto de devastação: destruição de habitats, contaminação da água, colonização, resíduos tóxicos, trabalho escravo, emissões de gás com efeito de estufa, guerras e lucros empresariais.

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Mina de Bingham Canyon

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Ímanes de turbinas eólicas

Os ingredientes básicos para as renováveis são os mesmos materiais que são omnipresentes nos produtos industriais, como o cimento e o alumínio. Ninguém faz cimento em qualquer quantidade sem o uso de energia dos combustíveis fósseis. E o alumínio? A própria extração mineira é um pesadelo destrutivo e tóxico do qual as comunidades ribeirinhas não vão acordar a não ser numa escala de tempo geológica.

John Zerzan comentando sobre a alta-tecnologia:

Do início ao fim, as tão chamadas “energias renováveis” e outras “tecnologias verdes” levam à destruição do planeta. Estas tecnologias estão enraizadas na mesma extração industrial e nos processos de produção que têm grassado pelo mundo nos últimos 150 anos.

Nós não estamos interessados em reduzir ligeiramente os danos causados pela civilização industrial; estamos interessados em parar completamente esses danos. Consegui-lo irá requerer desmantelar a economia industrial global, o que tornará impossível a criação de tais tecnologias.

Não são as energias renováveis, tais como a solar, eólica e geotérmica, boas para o ambiente?

Não. A maior parte da eletricidade que é gerada pelas renováveis é usada durante o fabrico, extração mineira e outras indústrias que estão a destruir o planeta. Mesmo se a produção de eletricidade fosse inofensiva, o consumo certamente não o é. Todos os dispositivos elétricos, no seu processo de produção, deixa atrás de si o mesmo rasto de devastação. Comunidades vivas – florestas, rios, oceanos – tonam-se comunidades mortas.

"O importante é sentires-te bem contigo próprio."

“O importante é sentires-te bem contigo próprio.”

A redução de emissões que a renováveis pretende alcançar poderiam facilmente ser conseguidas através do aumento da eficiência das centrais a carvão, nos negócios, nas casas, a um custo muito inferior. No contexto da civilização industrial, esta abordagem faz mais sentido tanto econômica como ambientalmente.

O fato de esta abordagem não estar a ser tomada mostra que toda a indústria das renováveis não passa de especulação. Não beneficia ninguém para além dos investidores.

“Renováveis” significa que vão durar para sempre?

Não. Os painéis solares e as turbinas eólicas duram cerca de 20-30 anos, precisando depois de substituição. Os processo de produção na extração, poluição e exploração não acontecem só uma vez, são contínuos – e estão a expandir-se muito rapidamente. As renováveis nunca poderão substituir a infraestrutura dos combustíveis fósseis, pois são extremamente dependentes daqueles.

Irão as renováveis salvar a economia?

As tecnologias de energias renováveis dependem profundamente de subsídios governamentais, pagos pelos contribuintes e dados diretamente a grandes empresas como a General Eletric, BP, Samsung e Mistsubishi. Se por um lado este esquema lhes enche os bolsos, não nos ajuda a todos nós.

Para além disso, esta é a questão errada para se colocar. A economia industrial capitalista está a expropriar e a empobrecer milhares de milhões de seres humanos enquanto mata o mundo vivo. As energias renováveis dependem de capital centralizado e do desequilíbrio de poder. Nós todos não beneficiamos ao salvar esse sistema.

Em vez de defender mais tecnologia industrial, precisamos de mudar para economias locais baseadas na tomada de decisão em comunidade e naquilo que os nossos ecossistemas locais possam providenciar de forma sustentável. E precisamos de parar a economia global, na qual dependem as energias renováveis.

Ok, a extração de metal é prejudicial. Mas e se reciclarmos os materiais?

A reciclagem poderá ser “mais eficiente” que a extração da matéria virgem, mas não é a solução para problemas ambientais. Na verdade, contribui para aqueles.

Reciclar o alumínio, o aço, o silicone, o cobre, o metais raros e outras substâncias usadas nas “tecnologias verdes” pode apenas ser feito com um grande custo para o planeta. Reciclar estas substâncias é extremamente intensivo do ponto de vista energético, liberta grandes quantidades de gases com efeito de estufa e contribui para a poluição das águas subterrâneas e para a toxificação do planeta.

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A reciclagem de materiais necessita do comércio global, pois a maioria das operações de reciclagem acontece em países empobrecidos com legislação ambiental e de saúde negligentes. São extremamente perigosas para os trabalhadores. Muitas partes da tecnologias renováveis não podem sequer ser recicladas.

Ok, as tecnologias renováveis têm alguns impactos, mas mesmo assim são melhores que os combustíveis fósseis, certo?

As tecnologias de energias renováveis são melhores que os combustíveis fósseis no mesmo sentido que uma ferida de bala é “melhor” que duas. Ambas são lesões graves.

Queres disparar contra o planeta uma ou duas vezes?

A única forma de sair deste dilema é quebrá-lo: recusar ambas as escolhas e construir um caminho completamente diferente. Não apoiamos nem os combustíveis fósseis nem as tecnologias renováveis.

Esta analogia das balas nem sequer é completamente precisa, pois as tecnologias renováveis, em alguns casos, têm um impacto ambiental pior que os combustíveis fósseis.

                                                        Sinais da insanidade:

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Extrair metais não-renováveis,

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Transportá-los pelo mundo,

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Transformá-los,

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Chamar a isto Verde e Sustentável.

Mais renováveis não significa menos energia dos combustíveis fósseis, ou menos emissões de carbono. A quantidade de energia gerada pelas renováveis tem aumentado, mas também tem aumentado a quantidade gerada pelos combustíveis fósseis. Nenhuma central a carvão ou a gás foi desligada como consequência das renováveis.

Apenas cerca de 25% do consumo global de energia é feito na forma de eletricidade que flui por fios ou nas baterias. O resto é petróleo, gás e outros derivados fósseis. Mesmo se toda a eletricidade mundial pudesse ser produzida sem emissões de carbono, isso apenas iria reduzir as emissões totais por 25%. E mesmo isso teria pouco significado, pois a quantidade de energia consumida está a aumentar rapidamente.

É motivo de debate se algumas “renováveis” chegam sequer a produzir um saldo de energia. A quantidade de energia usada na extração, fabrico, desenvolvimento, transporte, instalação, manutenção, conexão à rede e eliminação das turbinas eólicas e dos painéis solares pode ser mais do que estes alguma vez produzem; pretensões em sentido contrário muitas vezes não têm em conta todos os “inputs” energéticos. As renováveis têm sido descritas como um esquema de lavagem de dinheiro: entra energia suja, sai energia limpa.

Os biocombustíveis, outro exemplo de “tecnologia verde”, têm mostrado saldos negativos de energia em quase todos os casos. Os biocombustíveis que produzem um saldo positivo, fazem-no minimamente. Estes combustíveis são habitualmente criados através da destruição de ecossistemas naturais, tais como as florestas tropicais ou pradarias, para dar lugar a produção agrícola, um processo que em si mesmo liberta ainda mais gases com efeito de estufa, reduz a biodiversidade e reduz a disponibilidade de comida local. A produção de biocombustíveis é considerada um dos maiores fatores na subida dos preços dos alimentos por todo o mundo nos últimos anos. Estes preços de comida em subida têm contribuído para a fome difundida, agitação social e violência.

Algumas pessoas gostam de promover a energia hidroelétrica como uma fonte de “energia verde”. Isto é falso. As barragens têm enormes impactos ambientais nos rios, praias e estuários. Para além deste impactos, muitas barragens são uma grande fonte de gás metano devido à decomposição de matéria orgânica no fundo dos seus reservatórios. O metano das barragens hidroelétricas pode ser responsável por 4% ou mais do aquecimento global.

Quais são as diferenças fundamentais entre os combustíveis fósseis e as tecnologias verdes?

Tecnologia Verde

Então e a energia solar?

Fábrica de painéis solares

Fábrica de painéis solares

A produção de painéis solares está neste momento entre as principais fontes de hexafluoretano, trifluoreto de nitrogênio e hexafluoreto de enxofre, três gases com efeito de estufa extremamente potentes que são usados para limpar os equipamentos de produção de plasma. Enquanto gás com efeito de estufa, o hexafluoretano é 12.000 vezes mais potente que o dióxido de carbono, é 100% produzido por humanos e sobrevive até cerca de 10.000 anos depois de ser libertado na atmosfera. O trifluoreto de nitrogênio é 17.000 vezes mais virulento que o dióxido de carbono e o hexafluoreto de enxofre 25.000 vezes. A concentração de trifluoreto de nitrogênio na atmosfera está a crescer 11% por ano.

De um relatório da coligação Tóxicos de Silicon Valley (Sillicon Valley Toxics):

Enquanto a indústria solar se expande, pouca atenção está a ser dada ao efeitos ambientais e de saúde potenciais desta rápida expansão. Os painéis solares fotovoltaicos mais comuns têm o potencial de criar uma nova fonte enorme de lixo eletrônico no fim da sua vida útil, que está estimada em cerca de 20 a 25 anos. Novas tecnologias solares fotovoltaicas estão a aumentar a eficiência e a reduzir os custos, mas muitas destas usam materiais extremamente tóxicos ou materiais com riscos de saúde e ambientais desconhecidos (incluindo nano-materiais e processos novos).

Então e a energia eólica?

Montagem de turbinas eólicas

Montagem de turbinas eólicas

Uma das turbinas eólicas mais comuns do mundo é um design com 1.5 megawatts produzido pela General Eletric. A nacele pesa 56 toneladas, a torre 71 toneladas e as pás 36 toneladas. Uma única turbina requer mais de 100 toneladas de aço.

Este modelo é um design pequeno, segundo os padrões modernos. A última turbina industrial tem mais de 180 metros de altura e requer cerca de 8 vezes mais aço, cobre e alumínio.

Estes materiais têm de vir de algum lado, e esse lugar é sempre a casa, o lugar sagrado, a fonte de comida, água ou ar de alguém. Nós simplesmente não ouvimos a sua desgraça porque, se forem humanos, normalmente são pobres e a sua pele é castanha. É aqui que o racismo, o colonialismo, o ambientalismo e a economia extrativa se juntam.

A maior produtora de turbinas eólicas no mundo é a Vestas, uma corporação de 15 mil milhões de dólares. A maior produtora de turbinas eólicas dos Estados Unidos é a General Electric, que tem bens em valor superior a 700 mil milhões de dólares e é o quarto maior produtor de poluição atmosférica. Alguém pensa que – depois de Fukushima, Hanford, Bhopal – que estas corporações massivas estão preocupadas com a justiça ou a sustentabilidade? O lucro é seu objetivo principal e face a isto a vida será sempre secundária.

Então e os veículos híbridos e elétricos?

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A produção de carros elétricos necessita de energia de combustíveis fósseis para a maioria dos aspectos da suja produção e distribuição. Este requerimento é talvez ainda mais extremo com os carros elétricos, pois têm de ser fabricados o mais leve possíveis, devido ao peso dos pacotes de baterias. Muitos materiais leves utilizados precisam de extremas quantidades de energia para serem produzidos, tais como o alumínio e os compostos de carbono. É por esta razão que provavelmente nunca verás um camião elétrico – são simplesmente muito pesados. E claro, os camiões são necessários para a extração e os combustíveis fósseis alimentam todos os camiões. Os carros híbridos ou elétricos são também carregados com energia que, na sua maioria, vem de centrais que usam gás natural, carvão ou combustíveis nucleares.

Um estudo recente da National Academies, que analisou os efeitos da construção de veículos, extração de combustíveis, refinação, emissões e outros fatores, demonstrou que os impactos de saúde e ambientais durante a vida dos veículos elétricos na verdade são maiores do que dos carros movidos a gasolina.

Deveríamos focar-nos em urbanização densa e transportes públicos?

Em alguns casos, o desenvolvimento urbanístico de grande densidade é preferível à dispersão suburbana. Pode reduzir o impacto nas comunidades selvagens locais significativamente. No entanto, o foco em comunidades urbanas densas e nos transportes públicos que é prevalente no movimento ambientalista moderno é problemático em vários aspetos.

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O principal problema com esta abordagem é que tem por garantida a existência de cidades. As cidades são insustentáveis, porque requerem a rotineira importação de recursos – comida, madeira, minerais e combustíveis – da terra envolvente, sem darem nada em troca. A terra sobre a qual cidade está não pode prover suficientemente os cidadãos de comida, abrigo, combustível e outros bens materiais.

Isto ao contrário da aldeias, acampamentos ou outras formas pequenas de povoação, que durante a história têm servido de modelo sustentável para comunidades humanas.

As cidades estão constantemente a sugar recursos da sua região envolvente e, no mundo moderno, do globo inteiro. Cidades densamente povoadas podem reduzir o impacto do chamado “desenvolvimento” na sua área imediata, mas não respondem aos impactos fundamentais das cidades ou da moderna cidade globalizada.

Por exemplo, enquanto que alguns bairros em Nova Iorque são extremamente densos e consomem quantidades relativamente baixas de energia, este é um ponto de vista limitado. Florestas tropicais estão a cair e montanhas estão a ser minadas até à exaustão para fornecer recursos a estas cidades. Qualquer tentativa séria de ambientalismo tem de ter em conta estes impactos de se produzir e transportar materiais até à cidade e tem de responder aos problemas fundamentais da extração de recursos e da expansão da civilização industrial global.

Na melhor das hipóteses, o crescimento urbano e o transporte público são estratégias de “redução de danos” apenas ligeiramente eficazes. Na pior, estas abordagens ao ambientalismo proporcionam um “verniz verde” às cidades corporalizadas, guiadas pelo lucro e dependentes da extração. Obscurecem o problema e, portanto, contribuem para ele.

Mas nós precisamos de eletricidade, não?

Os humanos, tal como outros animais, obtêm a sua energia principalmente ao comer plantas e outros animais. As plantas recolhem a sua energia do sol. Nenhuma espécie precisa de eletricidade para sobreviver. Apenas o sistema industrial precisa de eletricidade para sobreviver.

Central solar de Ivanpah

Central solar de Ivanpah

Neste momento, comida e habitats de criaturas vivas estão a ser sacrificados para alimentar a eletricidade. A infraestrutura, as minas, o processamento e a descarga de resíduos necessários para a produção elétrica estão a destruir florestas e outros sítios naturais por todo o mundo. Garantir a segurança energética da indústrias necessita de abalar a segurança de vida dos seres vivos (nós).

Qual é a vossa alternativa?

O uso de eletricidade só se tornou comum desde os anos 20 (ou até mais parte em muitas partes do mundo). Na maior parte do mundo, muita gente não tem eletricidade em casa, mesmo agora. Há muitas maneiras de suprir as nossas necessidades que não passam pela dependência na eletricidade.

A produção de eletricidade é insustentável, se por “sustentável” queremos dizer algo que podemos continuar a fazer para sempre sem causar males graves ou duradouros ao planeta. Sistemas de produção elétrica localizados, em pequena-escala, usando os restos da civilização, podem continuar durante algum tempo após o colapso das redes centralizadas de energia, mas a produção industrial e global de produtos “verdes” irá matar o planeta tão certamente como o status quo.

Nós somos céticos em relação ao uso da tecnologia industrial “verde” para facilitar a transição para um estilo de vida completamente não-industrial. A dependência na tecnologia industrial pode facilmente tornar-se um culto do progresso e pode afastar as pessoas da formas tradicionais e sustentáveis de vida.

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As únicas fontes de energia realmente “verdes” vêm da terra e não necessitam de destruição. Com isto queremos dizer a fotossíntese e a energia muscular. A permacultura, tal como outros métodos tradicionais de subsistência tais como a caça, a pecuária, a pesca e a colheita têm de ser a fundação de qualquer cultura sustentável futura; de outra forma qualquer reivindicação “verde” é falsa. Policulturas perenes, tanto cultivadas como selvagens, podem também fornecer as outras necessidades básicas vitais: água limpa, ar limpo, materiais para vestuário e abrigo e inspiração espiritual.

Leituras recomendadas:

Referências:

A Problem with Wind Power” by Eric Rosenbloom.
Energy Balance of the Global Photovoltaic (PC) Industry – Is the Industry a Net Electricity Producer?” by Michael Date and Sally M. Benson.
Green Illusions: The Dirty Secrets of Clean Energy and the Future of Environmentalism by Ozzie Zehner. University of Nebraska Press, 2012.
Deep Green Resistance: Strategy to Save the Planet by Lierre Keith, Derrick Jensen, and Aric McBay. Seven Stories Press, 2011.
Imperial San Francisco: Urban Power and Earthly Ruin by Gray Brechin. University of California Press, 2006.
Reservoir Emissions” by International Rivers. Accessed October 31st, 2014.
Solar industry grapples with hazardous wastes” by Jason Dearen, Associated Press. February 10th, 2013.
Ten Reasons Intermittent Renewables (Wind and Solar PV) are a Problem” by Gail Tverbeg. January 2014.

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