[México] Olhem quem eliminou seu pasamontañas!. Sobre a candidatura zapatista para 2018 e os anarquistas

Texto compartilhado da Agência de Notícias Anarquistas.

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Apenas com uma pequena surpresa me veio a notícia que o EZLN e o Congresso Nacional Indígena (CNI) postulariam uma candidata independente e indígena para as sondagens presidenciais em 2018, confirmando, pela milésima vez, que as guerrilhas não deixam de ser o que são: grupos políticos armados, autoritários e vanguardistas para a tomada do Poder. Isto parece para muitos; e em particular, para alguns setores do “anarquismo” civil ou libertário [1] tinham esquecido disso, e esta situação em si n&ati lde;o é algo que você pode culpar aos guerrilheiros, uma vez que eles são aqueles que estão sabendo jogar o jogo da política, mas sim a falta de clareza e análises entre os ácratas mesmos. Tempo atrás vimos como o EZ – ao contrário de outras guerrilhas de hoje como o EPR, ERPI, TDR, etc -, abandonaram as classificações proletárias do século XIX, para transformá-las em uma mais moderna, mas com a mesma essência; já não era mais a luta aberta contra o capitalismo (embora eles se digam anticapitalistas) mas contra o neoliberalismo, já não são mais os proletários e burgueses, agora são os de baixo e os de cima, já não era a destruição do Estado Burguês, mas a luta contra o Mau Governo, já não era a estrutura clássica do partido de quadros, mas nós vimos a transforma&cc edil;ão da Frente Zapatista em individualidades e coletivos aderentes à Sexta, afirmando que autônomos cumpriam as ordens do comando; mas disfarçada sob o pretexto de solidariedade com os zapatistas, suas comunidades e seus setores de luta fora de Chiapas (a CNTE só para mencionar algum), vimos como criticavam os governantes e promoviam seu mandar obedecendo, e também vimos como eles promoveram a “autonomia” através de recursos obtidos por Associações Civis e Organizações Não Governamentais (AC’s e ONG’s). Tudo isso tragaram certos “anarquistas”, mas obviamente NEM TODOS.

Eu me lembro muito bem como levantaram a Outra Campanha em tempo de eleição em 2005, quando o Subcomandante Marcos , então “Delegado Zero”, excursionou qual político por todos os cantos do país que lhe abriu as portas para dizer-lhe das suas dores e suas lutas, denunciando principalmente a ineficiência orgânica dos partidos políticos (com registro, claro!), falando da democracia representativa, bem como a podridão da classe política, solicitando a abstenção e boicote eleitoral, a organiza&c cedil;ão de baixo para cima e à esquerda e a construção de redes de luta autônoma, porque “de cima já não se pode fazer nada”. Para a época, isso trouxe a atenção de outras gerações de anarquistas que não tinham sido enganadas quando aconteceu o levantamento de 94. Mas não foram só os anarcos que responderam ao chamado, mas praticamente cada grupo ou pessoa que se encontrava na luta social, fazendo uma mistura de tudo com todos na Outra Campanha, amontoando tendências que inclusive eram contrárias entre elas, mas que em verdade iriam servir os fins políticos próprios do zapatismo e que não deixou de mostrar a clássica estratégia comunista da Frente Ampla, mas como sempre usando outras palavras talvez mais poéticas.

Pouco depois começaram a surgir críticas e distanciamentos dentro dos espaços anarquistas. Uns prontamente cortaram os laços e outros ainda timidamente erigiram críticas como as que promoveram o Bloco Anti-Constitucionalista da Outra Campanha [2], para a proposta de uma nova constituição política ou a crítica bem sucedida (salvando nossas grandes distâncias), que na época fez o Grupo Socialista Libertário de Monterrey, intitulada “A Sexta Declaração e a Outra Campanha: um programa e um projeto para a continuação do Capitalismo”[3].

Porque eu trago isto em questão? Primeiro para refrescar a memória um pouco e, em segundo lugar, para demonstrar a facilidade com a qual se tem adoçado orelha de muitos anarquistas, que ingenuamente quiseram ver anarquia onde não há, chegando a conformar não oficialmente a falácia do “anarco-zapatismo” falacioso não pela novidade da candidatura zapatista que finalmente revela seu verdadeiro rosto escondido debaixo do capuz, mas porque o zapatismo sempre foi reformista, mediador e recuperador. REFORMISTA porque ele s empre buscou a legalidade, a revogação, a aprovação e a conformidade com as leis ou acordos, o reconhecimento legal de povos indígenas dentro do sistema com base no ‘direitos’, o paternalismo de estado com apoio econômico, entre outras coisas; MEDIADOR porque ele está sempre usando os recursos que o Estado concede àqueles que vão fazer o trabalho social lá onde não se chegaria, fornecendo os meios e infraestrutura que, em última análise, servirá para fazer o trabalho – não é por acaso que em San Cristóbal de las Casas é um dos lugares onde abundam ONG’s e AC’s com ligação com o EZ (que grande negócio!) e que tem servido de todos os lados como apaziguador do confronto direto contra o Estado/Capital, propiciando a convivência, a civilidade e o pacifismo contra um inimigo que é brutal; e RECUPERADOR, porque suas ações não sendo um ponto de ruptura anti-estatal acaba jogando com os valores do sistema, assim como nos mostram abertamente hoje.

Agora que as coisas são claras, quantos anarquistas vão continuar apoiando esta luta? Agora que o anarco-zapatismo foi dividido em dois, com a qual metade permanecerá as pessoas que vagueiam nessa ideia, com os anarco ou com os zapatistas? Se você escolher metade do zapatismo lá onde tudo se encaixa, já nos deixe de chamar de companheiros, mas o problema com o lado dos “anarcos” é que aqui não se tem metades, ou se é ou não. Quando aqui um projeto anarquista promoveu um projeto de governo, um projeto de Poder? Jamais! Não vale tirar da manga as traições históricas da Espanha de 36, porque embora fossem traições, a crítica anarquista que muitos fizemos avançar tenha desfeito o anarquismo obreiro, industrialista e progressista, e muito menos não queiram nos aparentar com os politiqueiros marxistas da Frente de Estudantes Libertários do Chile que andam de presidentes de federações estudantis por essas terras, ou com aqueles que querem mostrar as experiências anarquistas como exemplos do Poder Popular.

Pobre daqueles, que minha memória deixa recordar, que diziam – eu que não vou marchar junto com o PRD, fazendo coro de que já tinha a consciência de que os partidos políticos e a via eleitoral estavam fadadas ao fracasso e eram em si parte do problema; devem estar a beira de um colapso porque seus heróis fizeram o que eles disseram que não fariam: buscar o Poder, ou talvez estão tomando com bons olhos a nova faceta e acatem os requisitos, as ordens porque, sim, disfarçadas de “solidariedade” e realismo pol&iac ute;tico.

Agora, mais hipster não poderia ter sido a proposta do EZ: uma mulher, indígena, de esquerda, para a presidência. Valha-me Deus! Por acaso ouviram o novo disco do Manu Chau? É típico do esquerdismo pós-modernista que procura tirar vantagem e endeusar a marginalidade para ganhar seguidores. Eles talvez pensem em um candidato que seja queer, vegano, de preferência moreninho e pobre, com lentes de macarrão, que sofreu bullying na escola primária, ou não!, melhor ainda, eles deveriam acabar com as intrigas com o AMLO (Andrés Manuel López Obrador) e fazer uma coalizão de esquerda, já que sabemos que para o zapatismo o AMLO não é de esquerda mas de centro, mas que importa pois o fim justifica os meios, “o que importa é salvar o país!”. Somente desta forma você pode resgatar e reutilizar a bandeira tricolor; herança do primeiro império e bandeira da consolidação do Estado-nação mexicano, que agora terá nesta bandeira um símbolo purificado da resistência e da dignidade…

Enquanto alguns tenham sonhos masturbatórios sobre isso, este lado continuará ateando fogo a qualquer símbolo do sistema, à suas bandeiras mexicanas, como aconteceu em 2014, no 1 de maio em Oaxaca, ou atacando o quartel-general do INE (Instituto Nacional Eleitoral), como ocorrido em Oaxaca, Puebla, Xalapa ou da cidade do México [4].

Valeria a pena mencionar as merdas que foram os governos de esquerda na América Latina, como seu amigo Evo Morales Presidente da Bolívia, o indígena Aimara de esquerda que teria vindo para salvar tudo, ou a Presidenta Bachelet que também veio para acertar a vida dos cidadãos chilenos por ser uma mulher de esquerda…! E nós não dizemos que esses governos foram uma porcaria porque eles têm exercido uma má gestão, mas porque em si, qualquer um desde que governo – e mais, que um presidente – servem para dar continui dade ao sistema: ao Estado, ao progresso, à sociedade tecno-industrial. Já não falo nem dos irmãos Castro em Cuba, nem de Chávez ou Maduro da Venezuela [5].

Mas além de tudo, nos é ridículo, que a proposta de EZ e do CNI surjam de um ambiente indígenas para organizar e gerir a sociedade de massas [6], buscando uma governança e ordem generalizada, porque estes tendem a homogeneizar, a controlar; especialmente se a dinâmica do capital se encontra mediando tudo. Um mundo governado por Estados-nações que degradam, invadem e destroem os territórios ancestrais; que impõe identidades nacionais, criadas para manter juntos os indivíduos sob o disfarce de suas leis; que destroem a biodiversidade e a própr ia natureza, é precisamente o mundo contra o qual lutamos. Eu não entendo como, hipoteticamente pensando, se sua candidata ganhasse, se poderia parar o avanço do progresso [7] e do industrialismo, que vai marginalizando cada dia mais esses setores indígenas com os quais dizem estar. Em última análise, o que vemos é que a proposta zapatista visa administrar o progresso.

Na hipótese que isso ocorresse, se tivéssemos um presidente da esquerda zapatista para 2018, teriam eles que se preparar para a insurreição não só anarquista, mas também de outros grupos que reconhecem o Estado um garantidor do progresso; o grande problema aqui é o seguinte: eles nos conhecem muito.

Rebelião Imediata

MÉXICO, 18/10/2016

[1] Ao conceito de anarquismo civil me refiro aquele que busca afirmação social, que é tratado dentro da lei e que condena e às vezes aponta diretamente para os anarquistas que passaram para o ataque; que tanto pede permissões e direitos quanto apela para reformas sociais e buscando influenciar mesmo postos políticos nos espaços que pertencem ao Poder, sob as limitações que ele impõe; que está lado a lado com grandes setores da esquerda, que é populista e termina, muitas vezes chamando-se apenas como um “libertário” para não assustar as massas, escondendo a natureza ofensiva que tem tido sempre o anarquismo. Este anarquismo não concreta de todo uma ruptura com o Estado, porque na maioria dos casos, seus paradigmas são baseadas nas teorizações do início do século XX, que não são adaptadas para os dias atuais e além disso, contaminados por experiências históricas próximas do marxismo, o que o faz flertar com a social-democracia e seu cidadanismo.

[2] http://anticonstitucionalistas.blogspot.mx/

[3] https://webgsl.wordpress.com/2007/11/30/la-sexta-declaracion-y-la-otra-campana-un-programa-y-un-proyecto-para-la-continuidad-del-capitalismo/

[4] Aqui enumera-se mais ou menos recentes ações apenas para mostrar uma das formas e objetivos que tiveram os anarquistas no México, mas que são não somente restritas a este tipo de intervenção: ataque a sede do PRI (Partido Revolucionário Institucional) em Oaxaca, lançado em 1 de maio de 2015. Ataque explosivo nas instalações do INE em Puebla em 27 de março de 2015. Incêndio no INE e SEDESOL (Secretaria de Desenvolvimento Social) em 1 e 2 de junho (respectivamente) de 2015 em Xalapa. Ataque em uma sede do PRI-DF em plena marcha de comemoração do 43 aniversário do Halconazo em 10 de junho de 2014. A tentativa fracassada de atacar o Instituto Federal Eleitoral (IFE agora INE) e uma sede do PRD (Partido Democrático da Revolução) no DF (agora CDMX) em 27 de junho de 2012, onde foi ferido pela explosão de sua bomba o anarquista Mario López, aprisionado e hoje em fuga clandestina.

[5] Também vimos na Venezuela aparecer monstros chamados de “anarco-chavistas” ou o “anarco-maduristas”, inseminadas por setores pseudo-anarquistas do Chile.

[6] A sociedade de massa: Organização social de grande escala e complexidade que unifica a indivíduos e grupos que perdem suas próprias características essenciais (ou que suas características são as que o próprio sistema amolda) e se juntam em uma comunidade fictícia para a reprodução do Capital; que necessariamente precisam ser regulados por um Estado e, portanto, perdem sua autonomia, delegando a outros indivíduos ou corporações cada vez mais os aspectos de suas vidas.

[7] Para evitar confusão semântica, por progresso estou me referindo ao desenvolvimento de vários fatores de produção: tecnologia complexa, avanços científicos, geração de conhecimento ligado aos interesses capitalistas, expansão das áreas do fluxo de mercadorias, crescimento da expansão urbana; fatores que afetam a cada um dos aspectos da sociedade e tendem a torná-la complexa, dizimando e artificializando ecossistemas e formas de vida (humanas e não-humanas) que foram desenvolvidas f ora do atual sistema de dominação. O industrialismo é parte inerente do progresso. Tudo isto sob a ideia de um desenvolvimento em benefício da “humanidade”.

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