Índios têm mais bactérias benéficas à saúde, diz estudo

 Índios isolados da civilização concentram uma quantidade de bactérias benéficas à saúde muito maior do que populações ocidentais - Ariana Cubillos/AP

Índios isolados da civilização concentram uma quantidade de bactérias benéficas à saúde muito maior do que populações ocidentais.

Consumo de antibióticos modernos e dietas industrializadas tornam populações de origem europeia mais vulneráveis a doenças metabólicas e imunológicas.

Uma equipe multidisciplinar de cientistas americanos e venezuelanos, liderados por pesquisadores do Centro Médico Langone, da Universidade de Nova York, descobriu a coleção mais diversificada de bactérias corporais já vistas em seres humanos em uma tribo isolada de índios ianomâmis, localizada em regiões remotas da floresta amazônica no Sul da Venezuela.

Segundo os cientistas, o microbioma de pessoas que vivem em países industrializados é cerca de 40% menos diversificado do que dos índios. O estudo foi publicado nesta sexta-feira na revista “Science Advances”.

O levantamento mostra como antibióticos modernos e dietas industrializadas reduzem significativamente a diversidade do microbioma humano. Trata-se de um efeito grave, considerando que as trilhões de bactérias que vivem no corpo e sobre ele são cada vez mais encaradas como vitais para nossa saúde.

Acredita-se que os índios ianomâmis, que vivem de caça e coleta há gerações, viveram em isolamento total do mundo até 2009, quando foram contatados pela primeira vez por uma expedição médica. Como esta é uma das raras populações que nunca foram expostas a antibióticos modernos, seus integrantes são encarados como uma grande oportunidade para estudo do microbioma humano.

— Nós encontramos uma diversidade sem precedentes nas amostras fecais, orais e da pele recolhidas entre os yanomamis — conta Maria Dominguez-Bello, professora de Medicina da Universidade de Nova York e líder do estudo. — É mais um sinal da relação, de um lado, entre a diminuição da diversidade bacteriana, dietas industrializadas, antibióticos modernos e, do outro lado, doenças metabólicas e imunológicas. Entre elas estão a obesidade, a asma, alergia e diabetes, que têm aumentado drasticamente desde os anos 1970.

Maria avalia que algum fator ambiental, que se manifestou fortemente nos últimos 30 anos, estaria conduzindo o ser humano a estas doenças, afetando o microbioma.

No estudo, a equipe de Maria avaliou amostras bacterianas coletadas e preservadas de 34 das 54 vilas ianomâmis presentes naquela região. Entre os voluntários, 28 deram amostras fecais e da pele, enquanto 11 deram apenas amostras fecais. O DNA destes materiais dos índios foi, então, comparado ao de amostras de populações dos EUA, de ameríndios amazônicos da Venezuela e de uma comunidade rural no Sudeste da África — ambos os povos têm maior exposição à cultural ocidental do que os ianomâmis.

— Há um gradiente de diversidade nas fezes e na pele que é inversamente proporcional à exposição a antibióticos e a alimentos processados — revela Jose Clemente, coautor da pesquisa e professor de Genética e Genômica da Escola de Medicina do Hospital Mount Sinai, em Nova York. — Mesmo uma exposição mínima a estes produtos diminui consideravelmente a diversidade e remove bactérias potencialmente benéficas do nosso microbioma.

Entre as amostras de pele dos ianomâmis, os pesquisadores não encontraram apenas um grupo taxonômico dominante de bactérias. No material coletado nos EUA, há menor diversidade e altas proporções relativas dos gêneros Staphylococcus, Corynebacterium, Neisseriaceae e Propionibacterium.

A análise genética do material coletado na boca e no intestino dos ianomâmis revelou que suas populações tinham bactérias que contêm genes que codificam a resistência aos antibióticos — não só os naturais, encontradas no solo, como também os sintéticos, algo que surpreendeu os pesquisadores.

— Durante os anos 1940 e 1950, no auge do desenvolvimento farmacêutico de antibióticos, a maioria deles era derivada de bactérias naturais presentes no solo — explica Gautam Dantas, professor de Patologia, Imunologia e Engenharia Médica da Universidade de Washington, que também assina o estudo. — Não esperávamos encontrar resistência aos antibióticos sintéticos modernos.

Os pesquisadores apontam que a grande maioria dos estudos do microbioma humano se concentram em populações ocidentais. A investigação de micróbios não expostos a dietas processadas e antibióticos poderia lançar luz sobre como o microbioma humano pode estar mudando em resposta à cultura moderna, e, portanto, ajudar a criar novas terapias que possam reabilitar desequilíbrios causadores de doenças.

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