[zine] Por Uma Anarquia Selvagem

Por Uma Anarquia Selvagem2

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Zine produzido e editado por “Dingo”. Contato do autor: dingo55@riseup.net

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Capítulo final do zine

A situação em que nos encontramos atualmente só pode ser descrita como catastrófica. A civilização se expandiu por todo o mundo sob a forma de um capitalismo global que parece ser capaz de se adaptar a qualquer crise e reprimir ou cooptar qualquer forma de resistência. A grande maioria da população mundial se encontra em um estado profundo de domesticação, e está disposta a defender o sistema do qual são dependentes a qualquer custo. O nosso planeta está cada vez mais tóxico, e as pessoa e outros seres vivos cada vez mais miseráveis e doentes.

Como se isso não bastasse, a perspectiva de um colapso global é iminente. Os mares estão morrendo. A medida que a acidificação e aquecimento dos oceanos avançam, zonas mortas se

expandem cada vez mais. Nas últimas décadas, 60% do zôoplancton e 40% do fitoplancton, que são a base da cadeia alimentar do oceano, já desapareceram. A maioria das áreas de pesca no oceano já estão exploradas, e é previsto que os estoques globais de peixes marinhos de pesca acabarão em 2048. A maioria dos rios já estão envenenados e suas águas não são próprias para consumo o humano, e as florestas que ainda não foram devastadas estão sendo desmatadas em um ritmo estarrecedor. Como se isso não bastasse, a agricultura industrial está rapidamente acabando com o solo arável do planeta e contribuindo para a desertificação, além de estar destruindo ecossistemas e envenenando seres humanos e não-humanos.

Como já foi abordado antes, a produção de petróleo está prestes a atingir o seu pico, e não há alternativas viáveis para substitui-lo que sejam remotamente sustentáveis. Além do mais, mesmo se houvessem alternativas viáveis, o seu processo de implementação seria longo e complicado, e incapaz de lidar com a urgência da situação.

Para piorar as coisas, o aquecimento global agrava todos esses problemas e apresenta uma série de outros problemas consigo. Os seus efeitos estão se desenrolando em um ritmo muito mais rápido do que esperavam as previsões feitas no século passado, e pouquíssimo tem sido feito para combate-lo apesar das montanhas de estudo demonstrando seu potencial catastrófico.

De qualquer forma, nós estamos para atingir a qualquer momento um ponto a partir do qual o aquecimento global passará se auto reforçar em um ciclo vicioso, tornando impossível evitar uma catástrofe global. Muitos especialistas afirmam que já passamos desse ponto, e que não há mais o que fazer. Mesmo se esse não for o caso, a única forma de impedir tal cenário seria parar quase toda a produção industrial nos próximos anos, um cenário tão improvável que não vale a pena ser considerado.

E o que podemos esperar do agravamento do aquecimento global? Além do agravamento dos problemas anteriores, os verões se tornarão mais quentes e as secas cada vez mais fortes e frequentes. Incêndios serão cada vez mais comuns e a agricultura sofrerá efeitos devastadores em grande parte do mundo. O nível dos mares também subirá de forma significativa, acabando com muitas cidades costeiras, forçando inúmeras pessoas a migrarem e causando prejuízo tremendo.

Também podemos esperar um agravamento de desastres naturais como furacões, que causarão cada vez mais prejuízo humano e econômico. Além do mais, a desertificação e aumento de temperatura tornarão várias áreas com grandes densidades populacionais inabitáveis ainda esse século, o que junto com outros fatores como o aumento de conflitos (os efeitos de secas na agricultura na Síria por exemplo, foi um dos principais fatores que desencadeou o conflito na região) gerará uma onda de migrações jamais vista antes, aumentando tensões sociais e gerando mais conflitos.

Em meio a esse cenário, o que podemos fazer? Temos visto uma onde crescente de motins e revoltas pelo mundo, seja na Grécia, Brasil, Turquia ou na França, além de movimentos de resistência indígena como o movimento do Delta da Nigéria e a resistência contra a expansão de projetos de extração de petróleo no Canada.Apesar de inspiradores, nenhum desses movimentos de resistência tem se mostrado capaz de desafiar a totalidade que enfrentamos. Além do mais, a crítica contra a civilização tão necessária nesse momento ainda é extremamente impopular mesmo entre ativistas mais “radicais”.

Por mais desesperadora que pareça a situação, não acredito que a reposta seja se afundar em desespero ou se abandonar ao hedonismo. A primeira coisa que precisamos fazer é encarar a situação que enfrentamos de forma honesta, e abandonar qualquer esperança de que uma revolução global possa impedir um colapso.

A partir do ponto que nós reconhecemos a situação em que estamos e paramos de nos desgastar lutando por falsas soluções, podemos procurar por perspectivas anárquicas em um mundo que está ruindo. Mas o que isso significa na prática? Nos próximos parágrafos tentarei apresentar ideias que surgiram a partir de leituras, conversas, experiências e reflexões na esperança de que outros anarquistas obtenham algum proveito delas e possam criticá-las, aperfeiçoá-las e expandi-las.

Primeiramente, eu diria que é hora de abandonar o navio. A vida civilizada tem se tornado cada vez mais miserável, e a partir de agora só se tornará mais. Os poucos luxos que ela tem a oferecer se tornarão cada vez mais escassos, e sobreviver através de seus meios se tornará cada vez mais difícil.

Devido ao nosso grau de domesticação, esse não é um processo fácil, e requer que nós aprendamos como suprir as nossas necessidades de forma direta para que não precisemos mais vender a nossa força de trabalho e jogar o jogo dos domesticadores. Para fazermos isso, precisamos aprender e recuperar uma série de técnicas, habilidades e conhecimentos que nos permitam fazer isso.

Entre essas coisas estão aprender a caçar (com armas de fogo, arcos, armadilhas, etc), cultivar (permacultura, horticultura tradicional de pequena escala, etc), preservar alimentos (secar, conservar, salgar), produzir cordas, roupas, ferramentas (de metais ou materiais encontrados na natureza), se aproveitar dos restos da sociedade, identificar e coletar plantas e fungos selvagens (alimentícios, medicinais, etc), medicina tradicional e primeiros socorros, autodefesa, formas de lidar com relações interpessoais e tomar decisões, etc. Essas habilidades e conhecimentos não apenas nos ajudarão a lidar com o colapso e recuperar a nossa selvageria como também poderão formar a base da sobrevivência de sociedades futuras autossuficientes.

Mas tão importante quanto desenvolver as habilidades necessárias para vivermos de forma feral é formarmos comunidades ou bandos com a mesma intenção, para viver de forma assentada, seminômade ou mesmo nômade.

Independente da forma que essas comunidades tomarem, elas precisarão de algum local para ocupar de forma permanente ou temporária. Aqui, eu tenho um ponto central para enfatizar: FIQUE LONGE DOS CENTROS URBANOS!As grandes cidades podem até servir como um ponto estratégico para fazer uma ação ou obter certos bens, mas elas não são um local apropriado para se assentar. Primeiramente valelembrar que as cidades estarão entre os locais mais afetados pelo colapso por serem completamente dependentes de redes de distribuição, incapazes de produzir seus próprios recursos. Qualquer coisa que derrube essas redes ou as afete de maneira significativa deixará uma cidade rapidamente desprovida de recursos essenciais.

Apesar da falta de recursos naturais para serem utilizados por anarquistas ferais, há no momento muitos resíduos deixados tanto pelas empresas quanto pelos habitantes dos grandes centros que podem ser aproveitados, como todo bom adepto do freeganismo bem conhece. Mas a medida que o processo de colapso se agravar e as redes de distribuição forem afetadas, esses recursos se tornarão cada vez menos frequentes e mais disputados pelos habitantes das urbes.

Além do mais, não há ambiente mais ultra domesticado do que as cidades. O contato com a natureza selvagem é essencial para o processo de reverter a domesticação, e a cidade limita seriamente esse contato, além de ser um ambiente que afeta negativamente a nossa psique e os nossos corpos de diversas maneiras.

Ocupemos o campo, as fazendas e as florestas. Assim criaremos zonas autônomas permanentes e temporárias, e nessas zonas poderemos desenvolver novas formas de vida autossuficientes, selvagens e sustentáveis. Formemos redes de apoio mutuo com outras zonas, para que essas redes nos permitam suprir nossas necessidades, defender os nossos territórios e atacarmos o sistema. Criemos uma resistência selvagem e plural como a dos povos de Zomia contra diversos impérios ao longo dos séculos.

O agravamento do processo de colapso também nos oferecerá uma série de oportunidades tanto para formar essas zonas autônomas como também para atacar o sistema à medida que ele se torna cada vez mais instável e abalado por conflitos. Primeiramente, a migração humana nos fornecerá diversas oportunidades de autonomia, à medida que áreas inteiras serão praticamente abandonas por diversas razões como a perda de solo arável (que pode ser recuperado com as técnicas certas), problemas de infraestrutura e aumento de conflitos.

É claro se as pessoas estão abandonando uma área, há uma razão para isso, e se nós não tivermos preparo para lidar com o que fez as pessoas saírem de lá, não conseguiremos aproveitar as oportunidades que essa migração apresenta. Se uma área está sendo abandonada pelo fato de seus moradores estarem sofrendo ataques de saqueadores por exemplo, não adianta tentar ocupa-la se nós não temos a capacidade de nos defendermos desses saqueadores.

O fato de que uma área está sendo abandonada não significa necessariamente que ela oferece uma oportunidade pertinente para uma ocupação. Não vejo como seria uma boa ideia ocupar, por exemplo, uma área que está sendo abandonada devido a uma contaminação radioativa. Em outros casos, as razões por trás das migrações podem ser extremamente vantajosas para nós.Se uma área se torna abandonada pelo estado em decorrência da instabilidade política e social que resultará de nossa crise ambiental, é de grande vantagem se aproveitar dessa falta de presença do estado para criar uma zona liberada.

Além do mais, essa mesma instabilidade nos oferecerá diversas oportunidades para atacar o sistema à medida que os governos se tornam cada vez mais enfraquecidos e ocupados enquanto tentam gerenciar a crise econômica, social e ambiental e lidar com os motins e insurreições que surgirão inevitavelmente. Muitos governos estarão sobrecarregados demais para conseguir alocar uma quantidade significativa de recursos para reprimir-nos, e muitos cairão em decorrência das guerras e insurreições cuja frequência e intensidade certamente aumentarão ao longo do século. Mas durante esse processo, é importante se lembrar que governos e corporações não serão os nossos únicos inimigos.

Muitos desses grupos que se opõe a eles também representam ameaças em potencial, como grupos fascistas de extrema direita e grupos criminosos ou de guerrilha que se aproveitarão da instabilidade social para conquistar poder, avançar os seus interesses e/ou atacar aqueles que estão mais vulneráveis. Durante o período de escalação de conflitos, é importante termos o tato necessário para identificarmos aliados e inimigos em potencial, ou terminaremos repetindo os mesmos erros cometidos por anarquistas no passado que não tiveram esse tato.

Voltando ao estado, é importante ressaltar que o fato de que vários estados se desestabilizarão ou mesmo cairão nas próximas décadas não significa que o estado se tornará uma ameaça menor ou menos preocupante. Eu diria que o contrário é verdade, pelo menos inicialmente.

Estrategistas militares de diversas potências mundiais já sabem do potencial que o aquecimento global tem de agravar crises econômicas e sociais, e já estão se preparando para conter insurreições. Não é à toa que recentemente diversos países têm aprovado leis “antiterroristas” e aumentado a repressão contra a dissidência política.

No futuro essa repressão com certeza continuará a aumentar, e aqueles que pretendem se opor ao sistema de forma séria devem estar preparados para se defender e/ou escapar das forças do estado sem contar com proteções legais. E é nesse cenário e contexto que surgirão as oportunidades de ataque à medida que o processo de colapso for se agravando. Nesse ponto, eu reforço o meu conselho de evitar se manter nos centros urbanos, pois esse é o ambiente onde o controle estatal é mais forte. É claro que nesses centros também se encontram muito alvos em potencial, mas qualquer estratégia que envolva ataca-los deve também envolver uma retirada para fora das urbes para evitar se colocar em uma posição vulnerável e se tornar uma presa fácil para a repressão estatal.

Quanto as pessoas em geral, é de se esperar que a grande maioria delas continue defendendo a ordem domesticadora e acreditando que a saída para a crise se dará através da tecnologia até que se torne claro que não há mais saída. A probabilidade de que haja um movimento de massas e/ou uma revolução anticivilização em grande escala é pequena, e eu certamente não contaria com ela.Apesar disso, é provável que sentimentos anticivilização e/ou antitecnologia aumentem a medida que o fracasso da civilização industrial se torna cada vez mais evidente. Mas vale lembrar que anarquistas não são os únicos que apresentam uma crítica a tecnologia e que pretendem um retorno a sociedades autossuficientes de pequena escala. De fato, há setores da direita alternativa neofascista que também compartilham desse ideal.

Portanto, se quisermos se aproveitar da crescente desilusão com a tecnologia e a civilização que provavelmente surgirá, devemos apresentar e deixar clara a nossa posição e crítica antiautoritária ao mesmo tempo que nos opomos aos autoritários de maneira direta.

Algumas outras considerações me vêm em mente, mas essas são especulativas demais para que eu sinta que elas possam ter alguma utilidade. Mesmo as ideias que eu apresentei aqui formam apenas um esboço pouco preciso do que podermos esperar pela frente, apesar de se basear em grande parte em estudos científicos e projeções futuras de tendências atuais. Muitas forças que escapam a minha análise também
estão em jogo, e o grau em que as forças que eu levo em consideração irão operar, além das diferentes maneiras que elas irão interagir com outras forças, estão além da minha capacidade de análise, e eu acredito que da capacidade de qualquer um. O fato é que qualquer projeção futura com essa complexidade e que avance décadas a frente em um cenário de mudanças tão drásticas está fadada a ser pouco mais do que um esboço grosseiro.

Embora essas projeções sejam importantes para podermos nos guiar no presente e tomar decisões que nos preparem para o futuro que está por vir, temos que permanecer adaptáveis e estarmos constantemente atentos para novos sinais e fenômenos surgindo no presente. Quantos teóricos do passado já não estiveram tão cegos pelas suas projeções futuras que não viram a história acontecer na sua frente?

De qualquer maneira, espero que a minha análise seja de alguma utilidade, e que ela possa fornecer ferramentas que contribuam para as reflexões e a prática de outros anarquistas. Espero ter deixado a minha posição clara, e ter mostrado que mesmo em um cenário de colapso global que não pode ser evitado por nenhuma revolução ainda há diversas perspectivas para a anarquia. Por fim, espero que nos encontremos não nas páginas de meus (ou os seus) escritos ou nos confins da internet, e sim no mundo vivo e selvagem, para que possamos um dia construir algo juntos e/ou lutarmos lado a lado.

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