O que é Anarquismo Verde?

Anarquismo Verde_Capa                                                  [faça o download do texto em pdf]

Estes escritos não são para ser “os princípios que definem” um “movimento” anarquista verde, nem mesmo um manifesto anti-civilização; são um olhar sobre ideias e conceitos básicos de membros de coletivos que dividem consigo e outros que se identificam com os anarquistas verdes. Nós entendemos e celebramos a necessidade de manter nossas visões e estratégias abertas, e discussões sempre são bem-vindas.

Nós sentimos que cada aspecto do que pensamos e do que somos precisam ser desafiados e permanecer flexíveis se nós quisermos crescer. Não estamos interessados em desenvolver uma nova ideologia, perpetuar uma visão de mundo única. Nós também entendemos que nem todos anarquistas verdes são especificamente contra a civilização (mas custamos a entender como alguém pode ser contra todo tipo de dominação sem pensar em suas raízes: a própria civilização). Até aí, entretanto, muito dos que usam o termo “anarquista verde” criticam a civilização e tudo que vem junto com ela (domesticação, patriarcado, divisão de trabalho, tecnologia, produção, representação, alienação, controle, destruição da vida, etc.).

Aqui você encontrará dois textos que discutem o Anarquismo Verde. Um é do livro “What is Green Anarchy?“, escrito pelo Green Anarchy Collective e traduzido pelo Coletivo Erva Daninha e o outro é um texto escrito pelo Black and Green Press, que foi traduzido pelo Contraciv.

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Anarquismo Vs Anarquia

Um fator que nós achamos ser importante para começar este texto é a distinção entre “anarquia” e “anarquismo”. Alguns poderão entender isso como uma pura questão trivial ou semântica, mas para muitos pós-esquerdistas e anarquistas anti-civilização, esta diferenciação é importante. Enquanto o anarquismo serve como um importante ponto de referência histórica do qual se extrai inspirações e lições, ele tem se tornado muito sistemático, fixo e ideológico – tudo o que a anarquia não é. Admitidamente, a anarquia tem muito pouco a ver com a orientação social/política/filosófica do anarquismo e mais a ver com aqueles que se identificam como anarquistas. Sem dúvida, muitos de nossa “linhagem” anarquista ficariam desapontados por esta tendência em solidificar algo que deveria estar sempre fluindo. Os primeiros que se identificaram como anarquistas (Proudhon, Bakunin, Berkman, Goldman, Malatesta e outros) respondiam a seus contextos específicos com suas próprias motivações e desejos específicos. Muito frequentemente, os anarquistas contemporâneos veem estas pessoas como representantes e fundadores da anarquia, e criam uma atitude do tipo “o que Bakunin faria” (ou melhor, “pensaria”) a respeito da anarquia, o que é trágico e potencialmente perigoso. Hoje, os que se identificam como anarquistas “clássicos” se recusam a aceitar qualquer realização em um território desconhecido dentro do anarquismo (ex.: primitivismo, pós-esquerdismo, etc.) ou tendências que têm estado frequentemente em desacordo com a aproximação com o movimento de massa dos trabalhadores (ex.: Individualismo, Niilismo, etc.). Estes anarquistas rígidos, dogmáticos e extremamente não-criativos foram muito longe em declarar que o anarquismo é uma metodologia social/econômica de organizar as classes trabalhadoras. Isso é obviamente um extremo absurdo, mas tais tendências podem ser vistas nas ideias e projetos de muitos anarco-esquerdistas contemporâneos (anarco-sindicalistas, anarco-comunistas, plataformistas, federacionistas, etc.).

O “Anarquismo” como se encontra hoje, é uma ideologia muito esquerdista, a qual nós devemos ir além. Em contraste, a “anarquia” é uma experiência sem forma, fluída e orgânica que abraça visões multifacetadas de libertação tanto pessoal quanto coletiva e sempre aberta. Como anarquistas nós não nos interessamos em formar uma nova estrutura ou conjunto de regras para viver e seguir, por mais “ética” ou “discreta” que pareça ser. Os anarquistas não podem oferecer um outro mundo para as pessoas, mas nós podemos levantar questões e ideias, tentar destruir toda dominação que impede nossas vidas e nossos sonhos e vivermos diretamente conectados com nossos desejos.

O que é Primitivismo?

Enquanto nem todos os anarquistas verdes se identificam especificamente como “Primitivistas”, muitos reconhecem a importância que a crítica primitivista tem tido nas perspectivas anti-civilização. O primitivismo é simplesmente uma análise antropológica, intelectual e experimental das origens da civilização e das circunstâncias que levaram ao pesadelo que nós atualmente vivemos. O primitivismo reconhece que na maior parte da história humana, nós vivíamos em comunidades cara-a-cara, em harmonia uns com os outros e com o nosso redor, sem hierarquias e instituições para mediar e controlar nossas vidas. Os primitivistas querem aprender através das dinâmicas que ocorreram no passado e em sociedades contemporâneas coletoras-caçadoras/primitivas (aquelas que existiram e ainda existem fora da civilização). Enquanto alguns primitivistas querem um retorno completo e imediato às sociedades coletoras-caçadoras, muitos primitivistas sabem que um conhecimento do que foi bem-sucedido no passado não determina exatamente o que funcionará no futuro. O termo “Futuro Primitivo” criado pelo autor anarcoprimitivista John Zerzan faz alusão de que uma síntese de técnicas e ideias primitivas pode ser unida com conceitos e motivações anarquistas contemporâneos para criar situações descentralizadas saudáveis, sustentáveis e igualitárias. Aplicadas não ideologicamente, o anarco-primitivismo pode ser uma importante ferramenta no projeto de des-civilização.

O que é Civilização?

Os anarquistas verdes tendem a ver a civilização como os aparatos lógicos, institucionais e físicos da domesticação, controle, e dominação. Enquanto diferentes indivíduos e grupos priorizam aspectos distintos da civilização (ex. os primitivistas tipicamente se focam na questão das origens, as feministas primeiramente se focam nas raízes e manifestações do patriarcado, e os anarquistas insurrecionalistas se focam principalmente na destruição das atuais instituições de controle), muitos anarquistas verdes concordam que ela é a base do problema ou a raiz das opressões, e que precisa ser desmantelada. A ascensão da civilização pode muito bem ser descrita como a mudança dos últimos dez mil anos de uma existência profundamente conectada com a teia da vida, para outra separada e em controle do resto da vida. Antes da civilização existia um amplo tempo livre, uma considerável autonomia e igualdade sexual, uma aproximação não-destrutiva do mundo natural, a ausência de violência, nenhuma instituição mediadora ou formal, e uma saúde vigorosa. A civilização iniciou a guerra, a subjugação da mulher, o crescimento populacional, o trabalho forçado, os conceitos de propriedade, hierarquias, e praticamente todas as doenças conhecidas, isso para citar apenas algumas das suas consequências devastadoras. A civilização conta e começa com uma renúncia forçada do instinto da liberdade. Ela não pode ser reformada, portanto é nossa inimiga.

Biocentrismo Vs Antropocentrismo

Um modo de analisar a extrema discordância entre as visões de mundo das sociedades primitivas e da civilização, é por meio de visões biocêntricas vs. antropocêntricas. O biocentrismo é uma perspectiva que nos coloca e nos conecta com a Terra e a complexa teia da vida, enquanto o antropocentrismo, a visão dominante do mundo, da cultura ocidental, coloca o foco na sociedade humana excluindo outras formas de vida. Uma visão biocêntrica não rejeita a sociedade humana, mas a retira do status de superioridade e a coloca em equilíbrio com as outras formas de vida. Ela coloca uma prioridade em uma visão biorregional, profundamente conectada com as plantas, os animais, insetos, clima, condições geográficas, e o espírito do lugar que habitamos. Não há divisão entre nós e o meio ambiente, então não pode haver objetificação ou alienação da vida. Onde a separação e a objetificação são as bases da nossa habilidade de dominar e controlar, a interconexão é um pré-requisito para uma profunda educação, atenção e compreensão. A anarquia-verde se esforça para ir além das ideias e visões antropocêntricas para um profundo respeito por toda vida e as dinâmicas dos ecossistemas que nos sustentam.

Uma Crítica à Cultura Simbólica

Um outro aspecto de que como nós vemos e relacionamos com o mundo que pode ser problemático, no sentido de que somos separados de uma interação direta com o mundo, é a nossa mudança em direção à uma quase que exclusiva cultura simbólica. Muitas vezes a resposta a esse questionamento é “Então vocês só querem reclamar?” o que talvez seja a intenção de alguns, mas essa crítica é um olhar para os problemas inerentes com uma forma de comunicação e compreensão que confia primordialmente no pensamento simbólico ao custo (e exclusão) de outros meios sensuais e não mediados. A ênfase no simbólico é um movimento da experiência direta para a experiência mediada, na forma de linguagem, arte, número, tempo etc. A cultura simbólica filtra toda a nossa percepção através de símbolos formais e informais. Está além de simplesmente dar nome as coisas, mas ter uma relação inteira com o mundo que é visto através das lentes da representação. É questionável se os seres humanos são como “peças” do pensamento simbólico, ou se esse pensamento se desenvolveu como uma mudança ou adaptação cultural, mas o modo simbólico de expressão e compreensão é certamente limitado, e sua dependência leva à objetivação, alienação e a uma cegueira da percepção. Muitos anarquistas verdes promovem e praticam a aproximação e a reanimação de métodos dormentes e inutilizados de interação e percepção, como o toque, olfato, e telepatia, bem como desenvolver métodos únicos e pessoais de compreensão e expressão.

A Domesticação da Vida

A domesticação é o processo que a civilização usa para doutrinar e controlar a vida de acordo com a sua lógica. Esses mecanismos aperfeiçoados de subordinação incluem: domesticação, criação, manipulação genética, intimidação, extorsão, aprisionamento, adestramento, coerção, chantagem, escravidão, governo, terrorismo, assassinato – a lista continua, incluindo quase todas as interações sociais civilizadas. Suas ações e efeitos podem ser examinados e sentidos por toda sociedade, reforçada pelas várias instituições, rituais e costumes. É também o processo pelo qual populações humanas antes nômades se mudaram para uma existência sedentária e assentada através da agricultura e criação de animais. Este tipo de domesticação requer uma relação totalitária com a terra, com as plantas e os animais sendo domesticados. Ao passo que em um estado selvagem toda vida divide e compete por recursos, a domesticação destrói esse balanço. A paisagem domesticada (ex.: terras pastoris/campos de agricultura, e em um nível menor, horticultura e jardinagem) requer o fim da livre partilha dos recursos que antes existiam; onde antes era “tudo é de todos”, agora é “meu”. No romance Ismael, o autor Daniel Quinn fala sobre essa transformação dos “largadores”(aqueles que aceitavam o que a Terra oferecia) aos “pegadores” (aqueles que exigiam da Terra o que eles queriam). Essa noção de posse é o que levou a fundação da hierarquia social enquanto a propriedade e o poder emergiam.

A domesticação não somente muda a ecologia de uma ordem livre para uma ordem totalitária, como escraviza as espécies que são domesticadas. De modo geral, quanto mais um ambiente é controlado, menos sustentável ele se torna. A própria domesticação humana envolve vários tipos de posses e controles, em comparação com o modo de vida nômade e coletor. Não é de se esperar que muitas alterações feitas de uma vida nômade-coletora para vida domesticada não foram feitas de forma autônoma, mas foram feitas através da lâmina da espada e da mira das armas. Considerando que somente há 2.000 anos atrás a maior parte da população do mundo era composta de coletores-caçadores, agora não chega 0.01%. O caminho da domesticação é uma força colonizadora que tem trazido uma grande quantidade de patologias para as populações dominadas e para os criadores dessa prática. Vários exemplos incluem um declínio na saúde nutricional devido à excessiva dependência de dietas não diversificadas, quase 40 a 60 doenças integradas às populações humanas por animal domesticado (influenza, resfriado comum, tuberculose, etc.), a emergência do excedente que pode ser usado para alimentar uma população fora de equilíbrio, o que invariavelmente envolve a propriedade e o fim da partilha incondicional.

As Origens e Dinâmicas do Patriarcado

Em relação ao início da mudança para a civilização, uns dos primeiros produtos da domesticação é o patriarcado: a formalização da dominação masculina e o desenvolvimento das instituições que a reforçam. Criando falsas distinções e divisões sexuais entre homens e mulheres, a civilização novamente cria um “outro” que pode ser “objetificado”, controlado, dominado, utilizado e transformado em mercadoria. Isso ocorre paralelamente à domesticação de plantas na agricultura e animais para pastoreio, em uma dinâmica geral, e também específica, como é o caso do controle da reprodução.

Como em outras regiões de estratificação social, papéis são definidos às mulheres para que assim se estabeleça uma ordem rígida e previsível que beneficie a hierarquia. As mulheres passam a ser vistas como propriedade, assim como os campos de trigo ou as ovelhas no pasto. A posse e o controle absoluto tanto da terra quanto dos animais, escravos, crianças ou mulheres, é parte da dinâmica estabelecida da civilização. O patriarcado exige a subjugação feminina e a usurpação da natureza, nos impulsionando a aniquilação total. O patriarcado define o poder, o controle e o domínio sobre o selvagem, a liberdade e a vida. O condicionamento patriarcal domina todas as nossas interações; com nós mesmos, nossa sexualidade, nossa relação uns com os outros e a nossa relação com a natureza. Isso limita severamente o espectro de possíveis experiências. A relação interconectada entre a lógica da civilização e o patriarcado é inegável; por milhares de anos eles transformaram cada nível da experiência humana, do nível institucional ao pessoal, enquanto devoravam a vida. Para ser contra a civilização devemos ser contra o patriarcado; e para se questionar o patriarcado se deve questionar a civilização.

Divisão do Trabalho e Especialização

A desconexão da habilidade de cuidar de nós mesmos e prover nossas próprias necessidades é uma técnica de separação e desempoderamento perpetuada pela civilização. Nós somos mais úteis ao sistema, e menos úteis a nós mesmos, se estivermos alienados dos nossos desejos e das outras pessoas pela divisão do trabalho e especialização. Não estamos mais aptos a sair pelo mundo e fornecer a nós mesmos e a nossos queridos o alimento e as provisões necessárias para a sobrevivência. Ao invés disso, nós somos empurrados a um sistema de produção e consumo de mercadorias ao qual estamos sempre em débito. Injustiças da influência direta que se dá através do poder efetivo das várias categorias de “experts”. O conceito de um especialista inerentemente cria uma dinâmica poderosa que enfraquece as relações igualitárias. Enquanto a Esquerda às vezes possa reconhecer esses conceitos politicamente, eles são vistos como dinâmicas necessárias, para manter ou regular, enquanto os anarquistas verdes tendem a ver a divisão de trabalho e a especialização como problemas fundamentais e irreconciliáveis, decisivos para as relações sociais na civilização.

Rejeição da Ciência

A maioria dos anarquistas anti-civilização rejeita a ciência como um método para compreender o mundo. A ciência não é neutra. Ela está carregada de motivos e conceitos que são criados, e reforçam a catástrofe da dissociação, desempoderamento e letalidade corrosiva que nós chamamos “civilização”. A ciência assume o afastamento, que é construído através da própria palavra “observação”. “Observar” algo é percebê-lo enquanto uma pessoa é distanciada emocionalmente e fisicamente, para ter um único canal de “informação”, vindo do que é observado para essa pessoa, que é definida como não sendo parte do que foi observado. Essa visão mecânica e baseada na morte é uma religião, a religião dominante do nosso tempo. O método científico lida somente com o quantitativo. Ele não admite valores ou emoções, ou, por exemplo, o modo como o ar cheira quando começa a chover – quando ela lida com essas coisas, ela lida transformando-as em números, tornando a singularidade do cheiro da chuva em uma preocupação abstrata com a fórmula química para o ozônio, tornando o modo como ele faz você sentir, em uma ideia intelectual de que as emoções são somente uma ilusão vinda do aquecimento dos neurônios. O próprio número em si não é real, mas um estilo de pensamento que foi escolhido. Escolhemos um hábito mental que foca nossa atenção em um mundo fora da realidade, onde nada possui qualidade ou vida própria. Escolhemos transformar a vida em morte. Os cientistas mais cautelosos podem admitir que o que eles estudam não passa de uma simulação limitada do mundo real complexo, mas poucos deles percebem que esse foco limitado é auto-alimentador, que ele construiu sistemas tecnológicos, econômicos e políticos que trabalham juntos, que sugam nossa realidade para eles mesmos. Tão limitado quanto o mundo dos números, o método científico nem ao menos permite todos os números – somente os números que são reproduzíveis, previsíveis, e a mesma coisa para todos os espectadores. Claro que a própria realidade não é reproduzível ou previsível ou a mesma para todos os espectadores. Mas tampouco são mundos de fantasia derivados da realidade.

A ciência não para de nos colocar em um mundo de sonhos – ela vai além, e faz desse mundo de sonhos o nosso pesadelo, onde seus conteúdos são selecionados para serem previsíveis, controláveis e uniformes. Toda a surpresa, tudo relativo aos nossos sentidos são reprimidos. Por causa da ciência, os estados de consciência que não podem ser seguramente determinados são classificados como insanos, ou, na melhor das hipóteses, “incomuns”, e excluídos. Experiências anormais, ideias anormais, e pessoas anormais são rejeitadas ou destruídas como se fossem componentes defeituosos de uma máquina. A ciência é somente uma manifestação, que está presa a uma ânsia por um controle que nós temos desde que começamos a cultivar terras e cercar animais ao invés de percorrermos o mais imprevisível (mas mais abundante) mundo da realidade, ou “natureza”. E a partir daí, essa ânsia conduziu cada decisão, do que se diz “progresso”, até e incluindo a reestruturação genética da vida.

O Problema da Tecnologia

Todos os anarquistas verdes de alguma forma questionam a tecnologia. Enquanto há aqueles que ainda propõem noções de tecnologias “verdes” ou “apropriadas” e buscam análises racionais para se apegarem por formas de domesticação, muitos rejeitam completamente a tecnologia. A tecnologia é muito mais do que fios, silicone, plásticos e aço. Ela é um sistema complexo que envolve divisão de trabalho, extração de recursos, e a exploração dos outros para benefício daqueles que executaram seu processo. A interface e o resultado da tecnologia sempre é uma realidade alienada, mediada e distorcida. Apesar do que dizem os apologistas pós-modernos e outros tecnófilos, a tecnologia não é neutra. Os valores e objetivos daqueles que produzem e controlam a tecnologia estão sempre embutidos nela.

A tecnologia se difere dos instrumentos simples em vários aspectos. Uma ferramenta simples e o uso temporário de um elemento em nosso meio para uma tarefa específica. Ferramentas simples não envolvem sistemas que alienam o usuário do ato. Esta separação é absoluta na tecnologia, criando uma experiência doentia e mediada, o que resulta em várias formas de autoridades. A dominação aumenta toda vez que uma nova tecnologia é criada, necessitando a construção de mais tecnologia para o suporte, abastecimento e reparo de tal tecnologia. Isto tem levado rapidamente ao estabelecimento de um sistema tecnológico complexo que parece ter uma existência independente dos humanos. Dejetos-produtos da sociedade tecnológica estão poluindo tanto nosso ambiente físico quanto nosso ambiente psicológico. Vidas são roubadas a serviço da máquina e do efluente tóxico do combustível tecnológico – ambos estão nos chocando. A tecnologia hoje tem multiplicado a si mesma, com algo semelhante a uma sinistra “sensibilidade”. A sociedade tecnológica é uma infecção planetária, impulsionada adiante pelo seu próprio ímpeto, rapidamente ordenando um novo tipo de ambiente desenvolvido para a eficiência mecânica e expansionismo tecnológico. O sistema tecnológico metodicamente destrói, elimina e subordina o mundo natural, construindo um mundo que sirva somente para as máquinas. O ideal que o sistema tecnológico aponta é a mecanização de tudo aquilo que encontra.

Produção e Industrialismo

Um componente-chave da estrutura tecno-capitalista moderna é o Industrialismo, o sistema mecanizado construído no poder centralizado e na exploração de pessoas e da natureza. O industrialismo não pode existir sem genocídio, ecocídio e colonialismo. Para mantê-lo, a coerção, desapropriação de terras, trabalho forçado, destruição cultural, assimilação, devastação ecológica e o mercado são aceitos como necessários ou mesmo benéficos. A padronização da vida pelo industrialismo transforma a vida em objeto e um bem de consumo, encarando toda vida como potenciais recursos.

Uma crítica do industrialismo é uma extensão natural da crítica anarquista ao estado pois o industrialismo é inerentemente autoritário. Para manter uma sociedade industrial, deve-se conquistar e colonizar terras para (geralmente) conseguir recursos não-renováveis para abastecer e lubrificar as máquinas. Este colonialismo é racionalizado pelo racismo, sexismo, e o chauvinismo cultural. No processo para adquirir esses recursos, as pessoas devem ser forçadas a saírem de suas terras. E para fazer as pessoas trabalharem nas fábricas que produzem as máquinas, elas devem ser escravizadas, devem tornar-se dependentes e sujeitas ao sistema industrial tóxico e degradante.

O industrialismo não pode existir sem uma massiva centralização e especialização. A dominação de classes é uma ferramenta do sistema industrial que nega às pessoas acesso a recursos e conhecimento, transformando-as em impotentes e fáceis de explorar. Além disso, o industrialismo requer que recursos sejam distribuídos ao longo de todo globo para perpetuar sua existência, e este globalismo enfraquece e destrói a autonomia local e sua auto-suficiência. É uma visão do mundo mecânica, que está atrás do industrialismo. É essa mesma visão de mundo que justifica a escravidão, extermínio e subjugação da mulher. Deveria ser óbvio para todos que o industrialismo não é apenas opressivo com os humanos, mas que é também ecologicamente destrutivo.

Além do Esquerdismo

Infelizmente, a maior parte dos anarquistas continuam sendo vistos e vendo a si mesmos como parte da esquerda. Esta tendência está mudando, visto que os anarquistas pós-esquerda e anticivilização fazem uma distinção clara entre suas perspectivas e a falida orientação socialista e liberal. A esquerda não tem apenas provido a si mesma um monumental fracasso em seus objetivos, mas é obvio pela sua história, pelas suas práticas atuais, e sua estrutura ideológica, que (enquanto apresenta a si mesma como altruísta e promotora de “liberdade”) é atualmente a antítese da libertação.

A esquerda, fundamentalmente, nunca questionou a tecnologia, a produção, organização, representação, alienação, autoritarismo, moralismo, ou o progresso, e não tem quase nada a dizer sobre ecologia, autonomia, ou individualidade em alguma agenda “progressista”, frequentemente usando aproximações coercivas e manipuladoras para criar uma falsa “unidade” ou a criação de partidos políticos. Enquanto os métodos e os exageros de implementação podem ser diferentes, o esforço total é o mesmo, a instituição da visão do mundo coletivizada e monolítica baseada na moral. .

Contra a Sociedade de Massas

A maioria dos anarquistas e “revolucionários” gastam uma parte significante de seu tempo desenvolvendo esquemas e mecanismos para a produção, distribuição, julgamento e a comunicação entre um grande número de pessoas; em outras palavras, o funcionamento de uma sociedade complexa. Mas nem todos anarquistas aceitam a premissa da coordenação e interdependência social, política e econômica global (ou mesmo regional), ou a organização necessária para sua administração. Nós rejeitamos a sociedade de massa por razões práticas e filosóficas. Primeiramente, rejeitamos a representação necessária para o funcionamento de situações fora do domínio da experiência direta (modos de existência completamente descentralizados). Nós não queremos controlar a sociedade ou organizar uma sociedade diferente, nós queremos uma estrutura completamente diferente. Queremos um mundo onde cada grupo seja autônomo e decida com seus próprios meios como viver, com todas as interações baseadas em afinidades, livres e abertas, e não coercitivas. Queremos uma vida na qual de fato vivemos, não uma que sobrevivemos. A brutalidade da sociedade de massas colide não apenas com a autonomia e individualidade, mas também com a Terra. Simplesmente não é sustentável (em termos de recursos, extração, transporte, e sistemas de comunicação necessários para qualquer sistema econômico global) continuar, ou prover planos alternativos para a sociedade de massas. Novamente, a descentralização radical parece ser a chave para a autonomia, promovendo métodos de subsistência sustentáveis e não hierárquicos.

Liberação Vs Organização

Somos seres empenhados para um rompimento profundo e total com a ordem civilizadora, anarquistas desejando liberdade irrestrita. Nós lutamos por liberação, por uma relação descentralizada e sem mediações com o nosso meio e com aqueles que amamos e com quem partilhamos afinidades. Os modelos organizacionais nos oferecem apenas mais da mesma burocracia, controle e alienação que recebemos da organização vigente (civilização). Enquanto talvez ocorra uma boa intenção ocasional, o modelo organizacional vem de uma mentalidade inerentemente desconfiada e paternalista, o que parece contraditório com a anarquia. As verdadeiras relações de afinidade surgem de uma profunda compreensão entre as pessoas, através de relações íntimas baseadas nas necessidades da vida diária, e não relacionamentos baseados em organizações, ideologias ou idéias abstratas.

Tipicamente, o modelo organizacional reprime as necessidades e desejos individuais para “o bem do coletivo” padronizando tanto a resistência quanto o ponto de vista. Dos partidos, à plataformas, à federações, parece que à medida que a escala dos projetos aumenta, o significado e a relevância que têm pelo indivíduo e sua vida diminui. As organizações são meios para estabilizar a criatividade, o controle de dissidência e a redução de “tangentes contra-revolucionárias” (como os quadros de elites ou lideranças determinam). As organizações tipicamente se apoiam no quantitativo, ao invés do qualitativo, e oferecem pouco espaço para a ação ou pensamento independente. Informalmente, as associações baseadas em afinidades tendem a minimizar a alienação das decisões e processos, e reduz a mediação entre nossos desejos e nossas ações. Relacionamentos entre grupos de afinidade são mais orgânicos e temporais, ao invés de fixos e rígidos.

Revolução vs Reforma

Como anarquistas, somos fundamentalmente contra governos, da mesma forma, contra qualquer espécie de colaboração ou mediação com o Estado (ou qualquer instituição de hierarquia e controle). Esta posição determina uma certa continuidade ou direcionamento de estratégia, que historicamente conhecemos como revolução. Este termo, quando mal entendido, diluído e agregado por várias ideologias e agendas, ainda tem significado para os anarquistas e para as atividades práticas não-ideológicas. Por revolução, entendemos como a luta constante para mudar a paisagem social e política de um modo fundamental; para os anarquistas significa seu completo desmantelamento. A palavra “revolução” é dependente da posição da qual é direcionada, bem como a atividade “revolucionária”. Novamente, para os anarquistas, isso é atividade que é direcionada para a completa dissolução do poder. A reforma, por outro lado, permite qualquer atividade ou estratégia direcionada ao ajustamento, a alteração, ou seletividade, mantendo os elementos do atual sistema, tipicamente usando os métodos e aparatos dele. As metas e métodos da revolução não podem ser ditadas nem realizadas nos contextos do sistema. Para os anarquistas, a revolução e a reforma invocam métodos e direções incompatíveis, e apesar de certas aproximações anarcoliberais, não existe continuidade. Para os anarquistas anti-civilização, as questões de atividade revolucionária desafiam e trabalham para desmantelar todo o cenário ou paradigma da civilização. A Revolução é também não um evento singular ou remoto que construímos ou preparamos para as pessoas, pelo contrário, é um estilo de vida ou prática de abordar situações.

Resistindo à Mega Máquina

Os Anarquistas em geral, e em particular anarquistas-verdes, adotam a ação direta em vez de formas mediadas ou simbólicas de resistência. Vários métodos e abordagens, incluindo subversão cultural, sabotagem, insurreição, “violência” política, (embora não sejam limitados somente a esses métodos) têm sido e permanecem como parte do arsenal de ataque anarquista. Uma única tática não pode ser efetiva em alterar significantemente a ordem ou sua trajetória. Mas estes métodos, combinados com transparência e crítica social, são importantes.

A subversão do sistema pode ocorrer do sutil ao dramático e pode ser um importante elemento de resistência física. A sabotagem sempre tem sido uma parte vital das atividades anarquistas, tanto na forma de vandalismo espontâneo (público ou noturno), ou através de uma coordenação ilegal e secreta de células autônomas. Recentemente grupos como a Frente de Libertação da Terra (ELF, na sigla em inglês) um grupo ambientalista radical mantido por células autônomas, tendo alvo aqueles que lucram com a destruição da Terra, têm causado milhões de dólares em danos a lojas e escritórios corporativos, bancos, madeireiras, laboratórios de engenharia genética, veículos e casas luxuosas. Estas ações, que frequentemente são incêndios, têm inspirado muitos à ação, e são meios efetivos de não só trazer atenção à degradação ambiental, mas também como detentores de específicos destruidores da Terra.

A atividade insurrecionária, ou a proliferação de momentos insurrecionais que podem causar a ruptura da paz social da qual a raiva espontânea das pessoas pode ser liberada e possivelmente propagada em condições revolucionárias, também têm aumentado. A revolta de Seattle em 1999, Praga em 2000 e Genova em 2001, foram todas (de diferentes maneiras) faíscas de atividades insurrecionais, que, embora limitados em alcance, podem ser vistos como tentativa para mover em direções insurrecionárias e fazer um rompimento qualitativo com o reformismo e todo o sistema escravista.

A violência política, incluindo o ataque a indivíduos responsáveis por atividades específicas ou pelas decisões que levam a opressão, também tem sido um foco para os anarquistas historicamente. Enfim, considerando a imensa realidade e toda extensão penetrável do sistema (socialmente, politicamente, tecnologicamente), ataques a redes tecnológicas e na infra-estrutura da mega-máquina são de interesse para anarquistas anti-civilização. Indiferente da aproximação ou intensidade, as ações militantes unidas com uma análise profunda da civilização estão crescendo.

A Necessidade de Ser Crítico

À medida que a marcha da aniquilação global avança, a sociedade se torna mais doente, perdemos o controle de nossas vidas e falhamos em criar uma resistência significativa contra a cultura-da-morte. É vital para nós, sermos extremamente críticos com os movimentos “revolucionários” do passado, com esforços atuais e com nossos próprios projetos, não podemos repetir perpetuamente os erros do passado ou sermos cegos para nossas próprias deficiências. O movimento ambientalista radical está repleto de campanhas com um só foco e gestos simbólicos e a cena anarquista está infestada por tendências esquerdistas e liberais. Ambos continuam insistindo em gestos ativistas sem significado, raramente questionando sua (in)eficiência. Frequentemente a culpa e o auto-sacrifício – ao invés de sua liberação e liberdade – guiam esses benevolentes reformadores sociais irrealistas, enquanto eles continuam por um caminho que foi esboçado por falhas diante deles. A Esquerda é uma ferida inflamada na bunda da sociedade, os ambientalistas não têm obtido sucesso na preservação de nem mesmo frações de áreas selvagens, e os anarquistas raramente possuem algo provocativo para dizer, deixemo-os em paz. Enquanto alguns podem discutir contra o criticismo porque ele é “analítico”, qualquer verdadeira perspectiva radical veria a necessidade da análise crítica, em mudar nossas vidas e o mundo que habitamos. Aqueles que desejam acalmar um debate até o “depois da revolução”, contendo toda a discussão em debates vagos e insignificantes, e reprimir a crítica das estratégias, táticas, ou ideias, não estão indo a lugar algum, e só vão nos atrasar. Um ponto essencial de qualquer perspectiva anarquista radical deve ser colocar tudo em questão, obviamente incluindo suas próprias ideias, projetos e ações.

Influências e Solidariedade

A perspectiva anarquista-verde é diversa e aberta, contudo, contém alguns elementos contínuos e primários. A anarquia-verde tem sido influenciada por anarquistas, primitivistas, luditas, insurrecionalistas, situacionistas, niilistas, ecologistas profundos, biorregionalistas, ecofeministas, várias culturas indígenas, lutas anti-colonialismo, os “ferais”, os selvagens e a Terra. Os anarquistas, obviamente, contribuem para o impulso anti-autoritário, que desafia todo o poder num nível fundamental, empenhados por relações verdadeiramente igualitárias e promovendo comunidades de apoio mútuo. Os anarquistas-verdes, entretanto, ampliam as ideias de não dominação para todas as formas de vida, não apenas humanos, indo assim além das análises anarquistas tradicionais.

Dos primitivistas, os anarquistas-verdes são instruídos com um olhar crítico e provocativo das origens da civilização, para que entendam que confusão é essa e como chegamos a ela, para ajudar a apontar uma mudança de direção. Inspirados nos Luditas, os anarquistas-verdes reacendem uma orientação de ação direta anti-tecnológica-industrial.

Os insurrecionalistas introduzem uma perspectiva onde esperam não uma crítica positiva e verdadeira, mas identifica espontaneamente as instituições da civilização que atam nossas liberdades e desejos.

Os anarquistas anti-civilização devem muito aos Situacionistas, e suas críticas da alienante sociedade da mercadoria, a qual podemos romper nos conectando de forma direta com nossos sonhos e desejos não mediados.

A recusa niilista em aceitar qualquer realidade demonstra o quão profundo é o mal dessa sociedade e oferece aos anarquistas verdes uma estratégia que não necessita oferecer visões da sociedade, mas ao invés disso, focalizar em sua destruição.

A Ecologia Profunda, apesar de sua tendência misantrópica, instrui a perspectiva anarquista verde com um entendimento de que o bem-estar e a prosperidade de toda a vida estão ligados ao conhecimento do valor inerente e intrínseco do mundo não-humano independente de valor útil. A apreciação da ecologia profunda pela riqueza e a diversidade da vida contribui para a realização que a atual interferência humana com o mundo não-humano é coercivo e excessivo, com uma condição que se agrava rapidamente.

O Biorregionalismo nos conduz a uma perspectiva de viver dentro de nossas próprias biorregiões, e nos tornarmos intimamente conectados com a terra, a água, o clima, as plantas, os animais, e outros espécimes da biorregião.

O Ecofeminismo tem contribuído para a compreensão das raízes, dinâmicas, manifestações e realidade do patriarcado, e seus efeitos na terra, nas mulheres, e na humanidade em geral. Recentemente, a separação destrutiva do homem da Terra (civilização) tem provavelmente sido articulado mais claramente e intensamente por ecofeministas.

Os anarquistas anti-civilização têm sido profundamente influenciados por várias culturas indígenas e nativas ao longo da história e por aquelas que ainda existem. Enquanto humildemente aprendemos e incorporamos técnicas sustentáveis de sobrevivência e maneiras saudáveis de interagir com a vida, é importante não igualar ou generalizar povos nativos e suas culturas, respeitar e nos esforçar a entender sua diversidade sem agregar identidades e características culturais. Solidariedade, apoio, e tentativas de se conectar com nativos e lutas anti-coloniais, que têm sido a linha de frente da luta contra a civilização, são essenciais enquanto nós nos esforçamos para o desmantelamento da máquina-de-morte. Também é importante entender que nós, de certa forma, descendemos de povos nativos que foram violentamente retirados de suas conexões com a terra, e por isso devemos fazer parte das lutas anti-coloniais.

Somos inspirados também pelos ferais, aqueles que escaparam da domesticação e se reintegraram com o selvagem.

E, claro, com os seres selvagens que tornam possível este lindo organismo azul e verde chamado Terra.

É também importante lembrar que, enquanto muitos anarquistas-verdes extraem influência de fontes similares, anarquia-verde é algo muito pessoal para aqueles se identificam ou se conectam com estas ideias e ações. As perspectivas derivam de nossas próprias experiências de vida na cultura-de-morte (civilização), e os próprios desejos fora do processo de domesticação, são ultimamente os mais vividos e importantes no processo de descivilização.

Retorno ao Selvagem e Reconexão

Para a maioria dos anarquistas verde/primitivistas/anti-civilização retorno ao selvagem e reconexão com a terra é um projeto de vida. Isto não é limitado à compreensão intelectual ou práticas de habilidades primitivas, mas, em vez disso, é um profundo entendimento das penetráveis maneiras pelas quais somos domesticados, fraturados, e deslocados de nós mesmos, dos outros e do mundo, o enorme e diário desafio de sermos íntegros novamente. Retorno ao selvagem tem um componente físico, o qual envolve habilidades resgatadas e desenvolvimento para uma coexistência sustentável, incluindo como obter alimento, abrigo, e nos curar com as plantas, e materiais que existem naturalmente em nossas biorregiões. O retorno ao selvagem também inclui o desmantelamento das manifestações físicas, dos aparatos, e da infra-estrutura da civilização. O retorno ao selvagem tem um componente emocional que envolve nos curar e curar os outros das profundas feridas de 10.000 anos, aprendermos a viver juntos em comunidades não-hierárquicas e não opressivas, e desconstruir a mentalidade domesticada do atual modelo social. Retorno ao natural envolve priorizar as vontades e experiência direta sobre a mediação e alienação, repensando toda dinâmica e o aspecto da nossa realidade, conectando com nossa fúria feral para defender nossas vidas e lutar por uma existência livre, desenvolvendo mais confiança em nossa intuição, estando mais conectados com nossos instintos, recuperando o balanço que foi virtualmente destruído depois de milhares de anos de controle patriarcal e domesticação. O retorno ao natural é o processo de se tornar “des-civilizado”.

Do livro “What is Green Anarchy?“, escrito pelo Green Anarchy Collective e traduzido por Coletivo Erva Daninha.

Anarquismo Verde
“O que é Anarquismo Verde?”, por Black and Green Press

Por favor, note que estas opiniões não representam qualquer “movimento” ou “organização”. São pensamentos coletados endossados por vários anarquistas verdes.

Isto não é para ser a palavra final sobre o assunto. Entre em contato se você tem algo a contribuir.

“… a luta contra a Sua-história, contra o Leviatã, é sinônimo de vida, é parte da autodefesa da biosfera contra o monstro que está deixando-a em pedaços E a luta não está de modo algum terminada, ela continua enquanto a besta for animada por seres vivos.” – Fredy Perlman

Recusa da Ideologia

Preste bem atenção: não há ideologia “anarquista verde” ou “anarco-primitivista”. Anarquistas são definidas essencialmente pelo desejo e pelas ações em direção a um modo de vida que é definido pelo que não está presente. Anarquia significa essencialmente “antiautoritária”, e como é fácil de ver, isso significa coisas diferentes. Não há uma visão ‘anarquista’ única.

Os “ismos” utilizados aqui são somente para razões convencionais, para se identificar com uma crítica maior. Anarquistas são aquelas que procuram um mundo livre de dominação e de hierarquias: o que significa a abolição de todos os poderes do Estado. O prefixo ‘verde’ aponta para a extensão dessas estruturas autoritárias, ou seja, aponta mais para a tecnologia, o industrialismo e a própria civilização (embora estas três categorias não se apliquem a todas as anarquistas verdes, veja a seguir mais informações sobre as várias vertentes).

Uma ideologia é um sistema de crença rígida que tem uma crítica, plano de ação e visão, encarnada por organizações, plataformas e assim por diante. Uma parte da crítica anarquista verde tem sido a compreensão do papel deste tipo de instituição de “pensamento em grupo”. A esquerda se segura forte na ideologia como um meio para a revolução, enquanto nós sentimos que o pacote completo não serve para despertar as pessoas para o seu próprio potencial, só lhes dá algo de novo para regurgitar. Nós sentimos que a ideologia é uma ferramenta da civilização, uma parte da totalidade do pensamento civilizado que mantém as pessoas num estado vegetativo constante. Nossos interesses estão em realizar um mundo de seres autônomos, não autômatos.

Isso deu razão para esquerdistas criticarem anarquistas verdes por não serem “organizados” e terem apenas visões soltas. No entanto, sentimos que este é um passo importante se quisermos voltar a ser seres inteiros.

Anarquia não é Democracia

Apesar dos esforços em favor de aspirantes a populistas para provar o contrário, a anarquia é, por definição, diferente da democracia (mesmo que seja democracia direta ou social). Ter que tocar nesse ponto parece um pouco mesquinho, mas é difícil olhar para a enorme quantidade de literatura anarquista sem ver a maior parte dela como nada mais do que “democracia radical” vestida de retórica anarquista.

Anarquia significa ausência de governo. Democracia é uma forma de governo. O sufixo ‘cracia’ significa poder, e democracia significa poder do povo. Para descer mais um degrau aqui, um governo é uma organização que media todas as atividades sociais, econômicas e políticas de um determinado povo. Então anarquia, por definição, não é democracia.

Anarquistas partem da rejeição completa de todas as instituições ou estruturas autoritárias por princípio. Todos os governos impõem-se sobre a Terra e a Vida. Enquanto eles existirem, a autonomia não pode existir. Tendo isso em mente, sigamos.

Anarquias Verdes?

Não existe apenas uma vertente da “anarquia verde” e há certamente muitas divisões entre nós, como há em todas as perspectivas políticas. O princípio unificador entre os anarquistas verdes é uma compreensão ecologicamente orientada das relações de poder. As diferenças surgem principalmente a partir da extensão com que consideramos que a domesticação pode, ou deve, ser derrubada.

Não conseguimos nem desejamos listar todas as diferentes vertentes do anarquismo verde. Queremos enfatizar que essas categorias são usadas para simplificar. Nós não temos nenhum interesse em restrições ideológicas e não tenho fé absoluta em tais resumos. As distinções apontam para críticas específicas e são utilizadas somente por razões convencionais.

Anarco-primitivismo: essa crítica olha para os milhões de anos de coexistência humana selvagem dentro da comunidade da vida como um olhar para a “natureza” e a capacidade humana. O que é compreendido a partir disso é que, contrariamente aos mitos dos civilizados, seres humanos, dada a chance, não são maus, embora o poder corrompa absolutamente.

A crítica olha para a domesticação como o início de um processo que nos trouxe até onde nós nos encontramos agora. Nosso entendimento é que não apenas as relações capitalistas são opressivas, mas que a agricultura sedentária deu lugar à propriedade e, assim, ao poder. Este ponto mostra o início do processo de remover a nós mesmos do “outro” e partir para uma relação “coisificada” com o mundo, onde todas as coisas são vistas como objetos para nosso uso ou manipulação.

Alguns dos principais pontos de discordância quanto a essa crítica estão em suas implicações. John Zerzan alega que para derrubar a civilização seria preciso a abolição do pensamento simbólico, enquanto outros diriam que a cultura simbólica é uma realização superior, mesmo concordando sobre a necessidade de rejeitar o sedentarismo agrícola.

Anti-civilização: essa crítica é semelhante ao anarco-primitivismo, mas tende a afirmar que o anarco-primitivismo idealiza certos povos ou tempos. A convenção desta vertente é remover essa bagagem que anarco-primitivistas tendem a carregar.

Anarquismo verde: esse termo é usado como um termo geral para aqueles que não utilizam qualquer das categorias acima e isso não significa que há consistência entre eles, logo este título amplo não se destina a agrupar essas pessoas inteiramente.

As distinções dentro desta categoria encontram-se principalmente nas questões sobre quão longe para trás devemos olhar para compreender a capacidade de destruição da civilização. Alguns diriam que a domesticação e agricultura podem ser ecologicamente “sustentáveis” e preferíveis. Outros afirmariam que a tecnologia em si não é um problema inerente.

O princípio unificador encontra-se na base ecológica e na compreensão do Estado Megatecnológico como destrutivo.

As vertentes filosóficas acima mencionadas tendem a ser acompanhadas por outro fator (embora não necessariamente tão divisivo ou particular):

Revolucionários: aqueles que procuram um movimento de massas e a revolução como meio para um mundo anarquista.

Insurrecionais: aqueles que buscam a revolta aqui e agora como um meio para abolir o sistema de uma forma mais individual.

Raramente há uma verdadeira separação aqui, mas a distinção tende a ter um impacto maior sobre as abordagens para destruir a totalidade da existência civilizada.

A grande disputa é que os dois não são inseparáveis e que qualquer ato de revolta é um golpe contra a ordem civilizada. Alguns poderiam apontar que a insurreição é o terreno fértil da revolução. Para um exemplo de debate entre as duas vertentes, ver Ted Kaczynski, “Atinja Onde Dói“, e Primal Rage, ”Atinja onde dói, mas no momento certo”.

Uma Nota Sobre a Ecologia Social

A ecologia social, geralmente relacionada com Murray Bookchin e seu Instituto de Ecologia Social tem sido vista como parte da anarquia verde. Vários grupos de anarquistas verdes têm publicamente denunciado que esta vertente não tem relação alguma com a anarquia. Bob Black (http://pt.protopia.at/wiki/Murray_Bookchin:_estatista_municipal) aponta mais detalhadamente para os princípios autoritários que fundamentam esta vertente.

A ecologia social, ou municipalidades libertárias, são inerentemente autoritárias, utopias democráticas que procuram apenas criar uma civilização verde. Nós não temos nenhum interesse em nos relacionar com aqueles que procuram ativamente reformar e continuar com uma realidade tão destrutiva.

Conceitos e Temas Centrais

Civilização

Estamos vendo o ponto final da civilização: a busca pela completa dominação da natureza, interna e externa, produzindo um estado de neurose universal.

Paul Shepard disse que o passo para a engenharia genética, incluindo a clonagem humana, está implícito na primeira etapa: a domesticação. O desejo de controlar é a pedra angular da civilização. A lógica interna dessa orientação em relação ao mundo e à vida está chegando à sua conclusão.

O espírito fundador da civilização começa, muito provavelmente, numa gradual divisão de trabalho ou especialização. As desigualdades surgiram por meio do poder afetivo de vários tipos de especialistas. O caminho para a civilização foi pavimentado pela domesticação dos animais, das plantas e dos nossos próprios antepassados, apenas 10.000 anos atrás, o que deu fim a um estado de anarquia natural que prevaleceu durante cerca de dois milhões de anos.

Antes da civilização existia um amplo tempo de lazer, autonomia e igualdade de gênero considerável, uma abordagem não destrutiva do mundo natural, a ausência de violência organizada e forte saúde e robustez. A civilização inaugurou as guerras, a submissão das mulheres, o crescimento populacional, o trabalho pesado, as hierarquias arraigadas, e virtualmente todas as doenças conhecidas, só para citar alguns de seus “benefícios”.

A civilização começa e se baseia na renúncia forçada da liberdade instintiva e do Eros. Ela não pode ser reformada, portanto é nossa inimiga.

Domesticação

A domesticação começou no (então) Crescente Fértil, no Oriente Próximo (atual Iraque), cerca de 12.000 anos atrás, embora tenha levado alguns milhares de anos para que este processo, ou a propriedade e poder que ele produziu, exigisse a defesa militar e a estratégia de controle social da civilização. A domesticação foi o primeiro ato na série que conduz à modernidade.

A domesticação é o processo no qual os seres humanos domam, controlam, reproduzem e modificam geneticamente outras formas de vida. É também o processo pelo qual populações nômades antigas mudaram para uma existência sedentária. O primeiro tipo de domesticação, a do controle humano sobre a vida, necessita de uma relação totalitária tanto com a terra, com as plantas e com os animais. Considerando que a vida selvagem compete por recursos de modo limitado (raramente usa um recurso mais do que o necessário); a domesticação destrói esse equilíbrio. A paisagem domesticada (pastagens, campos agrícolas, e até certo ponto, até a horticultura e a jardinagem) requer o fim do compartilhamento aberto dos recursos que existem ou existiram anteriormente naquela paisagem. A paisagem domesticada é a afirmação de que em que “isto já foi de todo mundo, agora é meu”. Indiscutivelmente esta noção de posse estabeleceu as bases para uma hierarquia enquanto propriedade e poder surgiam. A domesticação não somente muda a ecologia da paisagem de livre para totalitária, mas também escraviza as espécies que são domesticadas. Enquanto o trigo e o milho, suínos e equinos estavam dançando livremente no caos da natureza, eles foram colocados sob o controle de captores humanos que literalmente torcem seus genes à sua vontade. Geralmente, quanto mais um ambiente é controlado, menos sustentável é: os tipos mais sustentáveis de domesticação são as práticas de horticultura de jardineiros que trabalham com, e não contra, os ciclos naturais e são de pequena escala.

O segundo tipo de domesticação, a dos próprios seres humanos, envolve muitos custos em comparação ao modo de forrageamento nômade. Vale a pena notar aqui que a maioria das mudanças feitas na passagem do forrageamento nômade para a domesticação não foram feitas de forma autônoma, elas foram feitas na ponta da espada e da pistola. Há apenas dois mil anos atrás a maioria da população mundial era de caçadores-coletores, agora esses são 0,01% da população. Este fato não é um resultado de uma decisão coletiva e informada das pessoas livres de seguir no caminho da civilização.

O caminho da domesticação envolveu mais do que a escravidão de populações. Ele criou inúmeras patologias para os criadores dessa prática. Vários exemplos incluem um declínio na saúde nutricional devido à dependência de dietas sem diversidade. Cerca de 40 a 60 doenças são integradas às populações humanas para cada espécie domesticada (gripe, o resfriado comum, tuberculose…). O surgimento de excedentes é usado para alimentar uma população fora de equilíbrio e invariavelmente envolve a propriedade e o fim da partilha incondicional, problemas resultantes da proximidade com excrementos, o surgimento de ambientes ideais para parasitas, e a capacidade de doenças serem carregadas a longas distâncias e por um longo tempo.

Industrialismo

O industrialismo é a existência de sistemas de produção mecanizados e complexos que são construídos sob o poder centralizado e a exploração das pessoas e da natureza. A crítica ao industrialismo é uma extensão natural da crítica anarquista ao Estado, porque o industrialismo é inerentemente imperialista, genocida, ecocida e patriarcal. A fim de manter uma sociedade industrial, você deve conquistar e colonizar terras para adquirir recursos não renováveis para abastecer e lubrificar a máquina. Este colonialismo/imperialismo é racionalizado pelo racismo, sexismo, e chauvinismo cultural. No processo de adquirir estes recursos não renováveis, você deve forçar as pessoas para fora de suas terras. E, a fim de fazer as pessoas trabalharem nas fábricas que produzem as máquinas, você deve escravizar as pessoas, ou acumular os recursos que dependem para sua sobrevivência, como forma de coagi-los a entrar nas minas e trabalhar nas fábricas, ou sujeitando-as ao sistema industrial. O industrialismo não pode existir sem centralização maciça porque não pode existir sem especialização. A dominação de classe é uma ferramenta do sistema industrial que nega às pessoas o acesso ao conhecimento, tornando as pessoas impotentes e fáceis de explorar. Além disso, o industrialismo requer que os recursos sejam transportados por longas distâncias, a fim de perpetuar a sua existência, e esse globalismo elimina a autonomia local e autossuficiência. O industrialismo é inerentemente patriarcal porque é essencialmente anti-vida e objetificador por sua própria natureza. Aos olhos do empresário, as mulheres e a natureza estão aqui para o ganho material dos homens. A visão de mundo mecanicista está por trás do industrialismo. Esta é a mesma visão de mundo que tem justificado a escravidão, o extermínio e a submissão das mulheres. Deveria ser óbvio para todos que o industrialismo não é apenas opressivo para os humanos, mas também é ecologicamente destrutivo. Industrialismo significa sugar a terra com operações de mineração e extração de petróleo; contaminando os ecossistemas, o ar e a água com agentes químicos. A energia nuclear, a espinha dorsal da economia industrial avançada, pode em breve tornar este planeta inabitável, se não for impedida. Por estas e outras razões, nós somos absolutamente contra o industrialismo.

Tecnologia

A tecnologia é mais um processo ou conceito do que uma forma estática. É um sistema complexo que envolve divisão de trabalho, extração de recursos e expropriação para o benefício daqueles que implementam o processo. A tecnologia é distinta das ferramentas simples em muitos aspectos. Uma ferramenta simples é um uso temporário de um elemento dentro de nosso entorno imediato, que ajuda numa tarefa específica. Ferramentas não envolvem um sistema complexo que alienam o usuário da sua ação. Na tecnologia esta separação é visível, criando uma experiência mediada que leva a várias formas de dominação. Nossa dominação aumenta toda vez que uma nova tecnologia de “economia de tempo” é criada, uma vez que exige a construção de mais tecnologia para suportar, alimentar, manter e reparar a tecnologia original. Isto levou muito rapidamente ao estabelecimento de um sistema tecnológico complexo que parece ter uma existência independente das pessoas, e onde as relações de poder entre o “inventor” e a “invenção” favorecem claramente os interesses da própria máquina. Os subprodutos do sistema tecnológico estão poluindo tanto nosso ambiente físico quanto psicológico. Vidas roubadas a serviço da máquina e do efluente tóxico de combustíveis do sistema tecnológico, ambos estão nos afogando. A tecnologia está replicando-se agora para algo semelhante a uma senciência artificial. O sistema tecnológico é uma infecção planetária, impulsionada por seu próprio sucesso, rapidamente ordena um novo tipo de ambiente, projetado para a eficiência mecânica e o próprio expansionismo tecnológico. É questionável se a classe dominante (que ainda se beneficia economicamente e politicamente do sistema tecnológico) realmente tem qualquer controle sobre este monstro agora. O sistema tecnológico metodicamente destrói, elimina, ou subordina o mundo natural, e não permite que a terra se restaure e nem mesmo entre numa relação simbiótica. A tecnologia está construindo um mundo adequado apenas para as máquinas e seu ideal é a mecanização de tudo que encontra. Se quisermos ser mais do que servomecanismos, ou lacaios da tecnologia, temos de reconhecer seu domínio sobre nós e trabalhar para desmantelar o sistema que foi construído em torno das necessidades das máquinas, e não da vida livre.

Revolução

A trágica ironia das revoluções é que muitos das revoluções “bem sucedidas” nos tempos modernos na verdade reduziram o nível da liberdade e da autenticidade na sociedade. Isto acontece quando as causas da opressão e da alienação não são abordadas; quando o deus do progresso/desenvolvimento/dominação da natureza é cada vez mais plenamente obedecido.

Para a revolução de ter significado e substância, para ser libertadora, certas instituições até então inquestionáveis devem ser desfeitas. A civilização é a fonte de todas as dominações: patriarcado, divisão do trabalho, domesticação da vida, guerra…

Os “revolucionários” que não conseguem compreender e agir contra esses fundamentos, que só desejam reorganizar ou reformar o conjunto de tecnologia e capital, oferecem apenas um prolongamento do que é tão profundamente censurável.

Para nós, se essa palavra tem algum sentido, ela implica no desmantelamento da coisa toda.

Esquerdismo e Liberalismo

Os dois principais meios ou abordagens falhas e exauridas para a mudança nos últimos tempos têm sido o liberalismo e o esquerdismo.

O que realmente resta a ser dito sobre a perspectiva liberal ou a reforma? É um masoquismo sem fim, tempo e energia desperdiçada em busca de migalhas insignificantes, enquanto a sociedade e a biosfera tornam-se cada vez mais empobrecidas e arruinadas. Os liberais de todos os tipos, e incluindo praticamente todos os pacifistas, continuam em negação quanto ao aprofundamento da crise em todos os lugares. Alguns deles aparentemente nunca irão acordar para a profundidade e o alcance do que está errado. Eleitores fiéis e recicladores, eles se agarram à palpavelmente falsa alegação de que um sistema destrutivo pode de alguma forma ser resgatado, pode de alguma forma servir à Vida.

Quanto à esquerda, onde ela pode ser distinguida do liberalismo, achamos difícil imaginar um beco sem saída mais desacreditado. Falhou universalmente em termos de indivíduo e em termos de natureza. É um peso morto.

Basicamente, ele aparece em duas formas. O primeiro é mais abertamente reformista, em que objetivos mais “radicais” ficam escondidos das “massas” que procura atrair. Manipulação e falta de transparência definem esta marca de esquerdismo. A forma abertamente “radical” é quase sempre autoritarismo puro e simples. Os chamados comunistas lutam em vão contra essa bagagem, tentando defender retoricamente um suposto sentido “verdadeiro” do termo “comunismo”.

Na medida em que os anarquistas se apegam à esquerda e se definem em seus termos (como os anarco-sindicalistas), eles não chegam a lugar algum. Tecnologia, produção, hierarquia, governo, destruição ecológica e “progresso” continuam sendo ideias inquestionáveis pela maioria das pessoas que se identificam com a esquerda. Mesmo nas suas melhores oportunidades, a esquerda falhou miseravelmente, e as perspectivas atuais são ainda piores, agora que suas estratégias são conhecidas por todos.

População

A população mundial está fora de equilíbrio, e não estamos sugerindo uma estratégia para lidar com isso, mas achamos que há dados sobre essa situação que devem ser conhecidos. Nos últimos 200 anos a curva de crescimento da população humana mudou de um “S” típico de mamíferos para um “J” típico de vírus. Essencialmente, isso significa que a população foi aumentando dramaticamente a uma taxa ecologicamente letal e este é um comportamento populacional muito semelhante ao dos vírus que consomem o hospedeiro até que ambos morram. Esta é uma realidade muito grave que os movimentos sociais anteriores não consideravam e nem tinham as ferramentas para considerar.

Agora temos muitas ferramentas para entender isso e o problema não pode ser apresentado como um dos muitos “problemas” que poderemos resolver depois da eventual revolução. A resolução desta questão não deve, no entanto, equivaler à criação de meios de controle da população, pois esta seria uma abordagem autoritária. Como anarquistas, não temos meios para impor um número “sustentável” de pessoas. Nós escolhemos para disseminar a compreensão e conscientização sobre o problema para possibilitar a ação autônoma. O que é necessário abordar na questão da população é uma compreensão do contexto. Isso pode incluir a população mundial, regiões, hábitos de consumo, etc… De particular importância para os anarquistas verdes seria uma compreensão dos contextos de limites locais do número de pessoas e dos hábitos de consumo. As populações mais insustentáveis têm menos a ver com densidade populacional, e mais a ver com comportamento cultural. Os milhares de milhões de produtores rurais, literalmente metade da população do mundo, enquanto responsáveis em muitos lugares pelo desmatamento e a degradação da terra são, em termos ecológicos, muito menos impactantes do que a destruição causada pelo comportamento cultural (os hábitos de consumo) do mundo urbanizado. Embora seja verdade que a população atual está fora de equilíbrio e se dirige para uma queda catastrófica, a culpa é das populações mais responsáveis pela destruição ecológica, e não simplesmente dos números por si sós.

Neste contexto, o problema é maior do que o crescimento populacional. É a dominação de culturas urbanas cujos comportamentos são muito mais impactantes e destrutivos do que do crescimento de populações não industrializadas.

Como antiautoritários, esperamos que as comunidades autônomas vivam dentro de suas possibilidades, e temos fé de que os desequilíbrios gerados pelo imperialismo, o capitalismo e a globalização diminuam rapidamente uma vez que o sistema industrial se vá, e os nativos do planeta possam voltar para os modos de vida de foram roubados e perdidos. E isso vai ser baseado na autonomia coletiva e na consciência ecológica, não na autoridade do Estado.

Solidariedade Indígena

Um movimento revolucionário que não aborda a realidade dos habitantes originais da terra é um movimento fadado ao fracasso. Acreditamos que uma das razões que os movimentos revolucionários passados falharam miseravelmente em suas tentativas de criar uma sociedade igualitária e livre é que eles têm não tratado adequadamente as questões relativas ao direito dos povos indígenas à soberania ou à autodeterminação.

Movimentos que não tentam construir relações igualitárias com as comunidades indígenas e não apoiam suas lutas por autonomia nunca terão o apoio dessas comunidades. Na verdade, se um movimento supostamente “revolucionário” não aborda a questão da descolonização, ele provavelmente só contribui para a marginalização dos povos nativos e transforma-os em inimigos.

Movimentos estatistas têm sido genocidas em sua prática em relação às populações indígenas. Estes movimentos consideram povos indígenas como coisas “pré-capitalistas” que se interpõem no caminho da evolução socialista e do progresso industrial. As condições enfrentadas pelos povos indígenas sob os governos revolucionários e comunistas na Rússia, China, Vietnam, Nicarágua, Peru, Colômbia e em outros lugares têm divergido muito minimamente das condições opressivas que enfrentam sob os governos capitalistas.

O movimento anarquista não compartilha da história brutal do movimento comunista de subjugar os povos indígenas, mas a maioria dos anarquistas não aborda a realidade dos povos indígenas. Isto é extremamente lamentável, porque o movimento anarquista encontra aliados naturais do movimento da soberania indígena.

Muitos anarquistas consideram as questões indígenas como “nacionalistas” e, portanto, irrelevantes. Isto é extremamente falho porque sustenta que qualquer cultura distinta que toma medidas contra um poder colonial é “nacionalista”. Alguns movimentos indígenas são de fato “nacionalistas”, mas não no sentido de um Estado-nação, mas sim em termos de uma cultura distinta com os costumes distintos que tem o direito de existir livremente dentro de sua própria região. Os esforços dos povos nativos para declarar sua soberania muitas vezes são totalmente consistentes com o desejo anarquista quanto à descentralização.

Nosso movimento precisa perceber que a luta dos povos nativos é uma questão que deveria ser de grande preocupação para todos os que se consideram adversários de opressão. Os povos indígenas sempre estiveram envolvidos em lutas contra o Estado, o expansionismo industrial, e a exploração das empresas. Eles são as únicas comunidades que têm mantido uma relação relativamente harmoniosa com o mundo natural. Eles têm realizado batalhas impressionantes contra o status quo. Estas batalhas muitas vezes têm o objetivo de forçar as empresas para fora de uma terra sagrada, rejeitando as leis arbitrariamente impostas e ordenanças do Estado, e atacando desenvolvimentos industriais que ameaçam o bem-estar dos seres humanos e dos animais. Estas questões são totalmente consistentes com o anarquismo, e aqui encontramos o potencial de alianças poderosas entre anarquistas sinceros, ecologistas radicais e povos nativos.

A solidariedade anarquista para com os povos nativos não deve assemelhar-se, de modo algum, à apropriação cultural, cuja ideia de “solidariedade” com os nativos realmente consiste em roubar suas tradições e explorá-los para ganho pessoal. Em vez disso, nossa solidariedade com os nativos deve ser genuína, concreta, e, mais importante, igualitária. Quando o nosso apoio é recebido por eles, devemos nos juntar a eles na linha de frente da batalha contra a dominação colonial.

Sabotagem Econômica

É surpreendente que tantos anarquistas insurrecionais permitam-se serem arrastados para a drenagem de energia dos debates retóricos com liberais que tentam transformar questões estratégicas em questões morais. Suas tentativas de definir a destruição da propriedade e a sabotagem econômica como “violentas” e, assim, controlar a raiva daqueles que identificaram claramente os seus opressores e que estão se levantando contra sua ordem. Reverência pela propriedade é a lealdade ao capitalismo e aos valores do sistema que alguns de nós queremos seriamente destruir, não reformar. Sabemos que o nosso inimigo adora a propriedade, e que a fonte de seu poder, no mundo que eles criaram, é a sua propriedade roubada, e não temos qualquer reverência por qualquer coisa que o sistema usa para nos oprimir. Se nós estamos tentando uma verdadeira fuga da prisão desta sociedade, se estamos prontos para fazer um movimento contra nossos opressores, enquanto ainda há tempo, então nós temos que atacar onde dói, e isso não vai a ser realizado através de voto ou vigílias de paz. Nosso inimigo, a megamáquina, tem que ser enfraquecida antes que possa ser completamente destruída, e isso pode ser muito mais eficaz com golpes em pontos de pressão, com a intenção de prejudicar sua capacidade de se espalhar e se replicar. Movimentos como a Frente de Libertação da Terra demonstraram que a sabotagem econômica pode ser eficaz ao barrar ou atrasar ações específicas e suas consequências destrutivas. Nossa tarefa agora é derrubar este sistema em sua totalidade.

Violência Revolucionária

Enquanto a maioria de nós se esforça para uma existência pacífica e harmoniosa com a Vida, é importante reconhecer o contexto em que estamos atualmente. A maioria das pessoas está vivendo em condições deploráveis, não porque não se tornaram “civilizadas” ou “modernas”, mas porque são forçadas a ser a força de trabalho dos privilegiados. Aqueles de nós que vivem em “boas condições” também sofrem com a extrema alienação, a deterioração física, as distorções psicológicas e o vazio espiritual. Não há dúvida de que estamos todos rapidamente nos dirigindo num caminho de sentido único para o colapso final. É importante assumir a responsabilidade por esta situação e agir agora.

A noção de insurreição ou a promoção e insurgência de revolta com a finalidade de libertação é Inerente a ser anarquista revolucionário. Isso pode assumir muitas formas, mas a reforma dos sistemas de dominação não pode ser visto como revolucionário. Enquanto a maioria das ações anarquistas pode ser considerada não violenta, não pode haver limitação definida em nossa resistência.

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